sábado, maio 31, 2008

A Idade Média, os monges e o desenvolvimento da ciência e tecnologia

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Em síntese: O Prof. Léo Moulin, agnóstico ou ateu belga, reconhece a benéfica influência do Cristianismo e, em especial, da Regra de São Bento na evolução da cultura e da civilização.

Mostra como a Regra de São Bento, legislando para os monges, fez transbordar sobre toda a sociedade medieval e posterior certos princípios de disciplina, diligência e ordem no trabalho, que propiciaram a criação de grandes empresas industriais e culturais. São Bento, aliás, hauriu das Escrituras Sagradas a sua mentalidade; ora a Bíblia incute ao homem certo otimismo em relação à natureza, obra de Deus Criador, que confiou ao casal humano o mandato de explorar e dominar as criaturas inferiores.

A mesma fonte bíblica deu a saber ao homem que o universo foi criado com sabedoria e lógica; a própria razão humana, sendo dom de Deus, merece a confiança do homem; conscientes disto, os medievais cultivaram a inteligência, resultando daí grande número de Universidades e belas obras de arte (catedrais, especialmente), que supõem dinamismo, coragem e saber científico entre os homens da Idade Média. Esta, portanto, não foi o período obscuro do qual sem o devido conhecimento de causa [a acusam].

Costuma-se comentar a influência que o Calvinismo, fundado no século XVI, exerceu sobre o desenvolvimento comercial e econômico dos países que o adotaram. O senso religioso levou os calvinistas a se dedicarem “religiosamente” às suas atividades profissionais, donde resultou (em parte, ao menos) a rede colonial da Inglaterra e da Holanda.

Todavia é menos conhecida a influência sadia que a fé católica exerceu sobre os monges e as populações medievais em favor do progresso da civilização. Aliás, deve-se dizer que o Cristianismo, bem entendido e vivido, foi e será sempre um estímulo para a construção de um mundo mais humano, fraterno e, por conseguinte, mais feliz.

O Prof. Léo Moulin, 82 anos de idade, tem-se manifestado sobre o assunto. Já em PR 310/1988, pp. 115-120 foi publicada uma entrevista desse mestre sobre a Idade Média, acentuando os seus valores positivos. Léo Moulin voltou à temática em 1990 por ocasião do nono centenário do nascimento de São Bernardo (1090-1153), desta vez focalizado mais explicitamente o papel dos monges da Idade Média no progresso da civilização. Visto que a questão é de grande importância para dissipar equívocos, passamos a resumir tópicos de um artigo do Prof. Moulin publicado na revista “JESUS”, dezembro de 1990, pp. 103-107, com o título “Luminosissimo Medioevo!”

1. Invenções e Descobertas

A Idade Média ocidental ocupa lugar importante na história do desenvolvimento tecnológico, pois registrou uma série de invenções e descobertas que lhe dão preeminência sobre quanto ocorreu na mesma época fora do âmbito europeu. Sejam recordados: a bússola, as lentes de óculos, a roda com aros, o relógio mecânico com pesos e rodas (“invenção mais revolucionária do que a da pólvora e a da máquina a vapor”, conforme Ernst Junger), o canhão (em 1327), a caravela (em 1430), a própria imprensa, a ferradura de cavalo, que permite ao animal correr sobre terrenos inóspitos, os moinhos de água, de maré, de vento...Isto tudo fez que o Ocidente se encontrasse em melhores condições de civilização do que outras partes do mundo no século XVI.

2. A Regra de São Bento

Antes de todas estas, houve outra grandiosa “invenção”, que é a Regra de São Bento (+ 547).¹ Nesta encontramos elementos necessários ao bom andamento de uma empresa moderna.

Com efeito. Além do Ora (Oração), São Bento ensina o valor e a sistematização do Labora (Trabalho). Imagina, sim, o seu discípulo como um operário (RB Prol 14) que trabalha com mãos e ferramentas na oficina do Mosteiro (RB 4, 75-78). O trabalho é essencial à identidade monástica, seja o manual, seja o intelectual, seja o artístico ou artesanal. No decorrer da Regra, São Bento ilustra as motivações do Labora:

- o trabalho corresponde a um gênero de vida pobre, que exige a labuta pessoal para poder manter-se; cf. RB 48,8;
- o trabalho é serviço à comunidade e aos hóspedes, a exemplo do que fez Cristo; cf. Rb 48, 1-25; 53, 1-23;- o trabalho é desenvolvimento dos talentos que Deus entregou ao homem e cuja aplicação ele vai julgar; cf. Rb 4,75-77;
- o trabalho ajuda os pobres e evita a ociosidade, que é inimiga da alma; cf. RB 48,1.
São Bento quer que o trabalho seja executado “bem”, “com serenidade”, “sem tristeza” e “sem murmuração”; cf. RB 34,6; 35, 13; 40, 8s; 53, 18.

Trabalhar em comum é, para São Bento, um valor, tanto que os monges culpados de faltas graves são excomungados não só da oração e da refeição comunitárias, mas também do trabalho com os irmãos: “Que seja suspenso da mesa e do oratório o irmão culpado de faltas mais graves... Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado” (Rb 25, 1.3).

A Regra de São Bento, portanto, formou os monges (e, conseqüentemente, a sociedade) no sentido da diligência e da disciplina do trabalho. De modo especial, ela incutiu (e incute) dois valores muito estimados no mundo industrial moderno:

- a pontualidade. São Bento não transige a respeito. Prevê sérias punições para quem chega atrasado à oração litúrgica ou ao refeitório (RB 43); ao sinal dado de madrugada, levantem-se todos sem demora (Rb 22); quem recebe uma ordem, deve executá-la prontamente (Rb 5);
- atenção ao que se faz. São Bento formula uma norma decisiva: “Controlar a todo momento os atos de sua própria vida. Actus vitae suae omni hora custodire” (RB 4,48). É preciso, pois, estar presente de corpo e alma àquilo que se faz, sejam grandes, sejam pequenas coisas. A Regra prevê punições leitura, à qual todos devem prestar atenção, de modo que ninguém converse e só se ouça a voz do leitor (RB 38, 5). Haja absoluta limpeza, especialmente na cozinha (RB 35,6-11). A perda ou a quebra de qualquer objeto durante o trabalho requer satisfação da parte de quem comete a falha (RB 46, 1-4).

São Bento também pede que os monges não se entristeçam se a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem em trabalhos extraordinários, “porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos” (RB 48,8).

Estes princípios de ordem ascética, inspirados pelo amor à disciplina do Evangelho, contribuíam para que os mosteiros se tornassem grandes centros agrícolas e artesanais em toda a Idade Média, irradiando em torno de si amor ao trabalho, organização e método modelares para a posteridade. Essa sistemática não tinha em vista simplesmente produção e lucro materiais, mas era inspirada pelo espírito de fé e apoiada em razões monásticas. Assim, por exemplo, um texto do século XI explica por que foi adotado um moinho de água na comunidade: “...a fim de que os monges tenham mais tempo para dedicar-se à oração”.

Em seu afã de trabalhar para exercer disciplina e evitar a ociosidade (inimiga da alma), os monges dedicaram-se a quase todas as atividades produtivas: exploraram minas de carvão, salinas, metalurgia, marcenaria, construção... Assim, por exemplo, os monges cistercienses fabricaram fornos para produzir tijolos grandes, dotados de furos para facilitar a sua cozedura e manipulação; eram os chamados “tijolos de São Bernardo!. Montaram na Borgonha fábricas de telhas, que eles espalharam por diversas regiões.

Aliás, a própria Regra de São Bento pede que o mosteiro tenha em suas dependências tudo de que necessita para viver: “Seja o mosteiro construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água moinho, horta e os diversos ofícios se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de que os monges vagueiem fora, pois de nenhum modo isto convém às suas almas” (RB 66,6s). Ora esta norma da Regra não podia deixar de ser forte estímulo para a criatividade dos monges. O capítulo 57 da mesma Regra trata dos artesãos que, com a autorização e a bênção do Abade, trabalham no mosteiro como monges, e pede que os preços dos respectivos artefatos sejam mais baixos do que os preços do comércio de fora: “Quanto aos preços, não se insinue o mal de avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado” (RB 57, 7-9).
Sabemos ainda que em 1215 os maiorais da Inglaterra, tanto leigos quanto clérigos, obtiveram do rei João sem Terra o reconhecimento da Magna Carta (Libertatum), Grande Carta das Liberdades, que promulgava direitos da população e que se tornou o fundamento da Constituição liberal da Inglaterra e o embrião dos posteriores sistemas políticos parlamentares. Ora, um século antes disto, em 1115 a Ordem Cisterciense¹ concebera o sistema de governo mais prático que se conhece: o Capitulum Generale (Capítulo Geral), assembléia internacional da qual fazem parte representantes de todos os mosteiros e dotada de poder legislativo. A instituição do Capitulum Generale foi adotada por Ordens e Congregações Religiosas posteriores e tornou-se modelo para o regime de muitas sociedades de caráter internacional.

É preciso ainda apontar duas características da mentalidade medieval, de grande importância na história subseqüente.

3. Duas notas marcantes

3.1. Confiança na razão

Para os medievais, o mundo era obra de um Deus sábio e lógico, distinto do próprio mundo (em oposição a todo panteísmo). Por conseguinte, o mundo lhes aparecia como algo que pode ser conhecido pelo homem mediante a sua razão; não é um fantasma nem uma armadilha. Dizia no século XII o teólogo francês Guilherme de Conches: “Deus respeita as próprias leis”. E no século seguinte Santo Alberto Magno (+ 1280) afirmava: “Natura est ratio. A natureza é a razão ou é racional”. Em conseqüência, os estudiosos medievais se aplicaram ao raciocínio e à pesquisa (como a podiam realizar na sua época) com plena confiança no acume da razão, sem, porém, cair no racionalismo, pois acima da razão admitiam as luzes e as verdades da fé.

Um dos exemplos mais clássicos desse tipo de estudiosos é o inglês Rogério Bacon (1214-1294), chamado “Doutor Admirável”. Ingressou na Ordem dos Franciscanos em 1257 e pôs-se a comentar as obras de Aristóteles. Posteriormente dedicou-se à pesquisa científica, recorrendo a um método experimental, que foi precursor do método adotado por Francis Bacon (1561-1626); assim procedendo, fez descobertas no setor da ótica. Planejou diversas invenções mecânicas: máquinas a vapor, barcos máquinas voadores... Em seus escritos encontrou-se uma fórmula da pólvora, que ele pode ter tomado dos árabes numa época em que os europeus quase não a conheciam. Deixou obras famosas: Opus Maius, Opus Minus e Opus Tertium.

Os resultados dessa confiança dos medievais na razão humana fizeram-se sentir nos séculos subseqüentes: em 1608 contavam-se mais de cem Universidades na Europa e nenhuma no resto do mundo (exceto na América Latina, onde os espanhóis expandiam a sua cultura). Dessas Universidades, mais de oitenta tiveram origem na Idade Média, como genuína expressão da cultura medieval. Diz-se com razão que as Universidades e as catedrais exprimem autenticamente a Idade Média; na verdade, os medievais atingiram o primado mundial de altura de cúpula na catedral de Amiens (1221), com 42,30 metros, mede 142 metros de altura: só foi ultrapassada pela Torre Eiffel de Paris em 1889, com 320 metros.

3.2. Dinamismo

A Escritura Sagrada transmite aos seus leitores uma atitude dinâmica em relação ao universo que os cerca. Logo em suas primeiras páginas formula o desígnio divino: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança; domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 26). E após a criação do homem se lê a ordem divina: “Enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 28).
O salmo 8, por sua vez, canta o poder do homem sobre os seres que o cercam:

“Que é o homem para que dele te recordes?... e o filho do homem, para que dele tenhas cuidado? Não obstante, Tu o fizeste um pouco inferior aos anjos...e lhes deste poder sobre as obras de tuas mãos, tudo colocaste debaixo dos seus pés”.

No Novo Testamento lê-se que Cristo, ao encerrar sua missão pública, mandou aos apóstolos que fossem pregar o Evangelho no mundo inteiro; cf. Mt 28, 18-20.

Por conseguinte, a atitude do esforço, da luta, do empreendimento, da resposta ao desafio...é muito familiar ao cristão. Pode-se dizer que foram os cristãos que realizaram os progressos da ciência (tenha-se em vista o mundo ocidental comparado com o oriental ou asiático e africano!), as grande aventuras da conquista intelectual, econômica, marítima... Foram otimistas e dinâmicos, conseguindo belos e valiosos resultados.

Estas poucas observações são suficientes para percebermos a notável contribuição do Cristianismo para o avanço da cultura, da ciência e da civilização... na história da humanidade. E, dentro do Cristianismo, merece certamente relevo especial o monaquismo ocidental tal como São Bento (+ 547) o concebeu e a Ordem Cisterciense, com São Bernardo à frente, o desenvolveu.

¹ Citaremos a Regra de São Bento usando a sigla RB; os números seguintes indicarão respectivamente capítulo e versículo(s). A abreviatura Prol significa Prólogo.
É de notar que não sem motivo o Papa Paulo VI em 1964 declarou São Bento “Patrono do Ocidente”. Este deve muitos dos seus valores aos escritos e à obra de São Bento.
¹ Cisterciense é o monge Cister; segue a Regra de São Bento tal como foi entendida pelos reformadores de Cister, entre os quais está São Bernardo de Claraval (+ 1153).

(Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”. D. Estevão Bettencourt, osb.Nº 347 – Ano – 1991 – Pág. 177)
Os grifos são meus.

sexta-feira, maio 30, 2008

Maria, obra total de Deus

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No mês dedicado a Maria, mãe do meu Senhor (S. Lucas, I, 43), um pequeno trecho de um pronunciamento de Dom Eugênio Sales.


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«Maria contradiz o desespero do mundo», afirma o arcebispo emérito Dom Eugênio Sales.

«Ela permaneceu fiel ao pé da Cruz. Ela é o símbolo mais completo da nossa verdadeira esperança: ela é cheia de Graça, obra total de Deus. Feliz quem entende que “todas as gerações hão de chamá-la bem-aventurada” (Lc 1, 48)», destaca.

Fonte: Zenit

quinta-feira, maio 29, 2008

Os outros guias só mostram parte do Caminho

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“Ora, em Cristo tudo nos é falado. Tudo o que pode ser percebido pela criatura, nos á dado através de Cristo. Só Ele é guia certo e seguro. Só Ele é Verdade, Vida e Caminho que conduz a Deus. Ao contrário, todos os outros guias espirituais nunca puderam e jamais poderão fazer mais do que indicar um trecho do caminho. Nenhum deles é partida e chegada.”

(Extraído de um escrito de uma anônima senhora católica)


“O símbolo é atemporal porque Cristo é mesmo ontem, hoje e amanhã” (Pe. Alex)

quarta-feira, maio 28, 2008

Os sãos não precisam de médico

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Para todos aqueles que estão em falta com as leis de Deus vai aí uma pequena citação para lembrar que Ele nos ama e nos chama continuamente. Lembrem-se de que Ele veio para os doentes, não para os sadios.

"Os sãos não precisam de médico, mas os enfermos; não vim chamar justos, e sim os pecadores”


(São Marcos 2:17).

Tenhamos esperança e fé!



"…as nossas faltas não devem nunca desanimar-nos,…a dor de as termos cometido deve ser sempre acompanhada de uma invencível confiança na bondade divina…nossos pecados e imperfeições, longe de diminuirem essa confiança, são um dos seus elementos mais fecundos" [1].


[1] TISSOT, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. Quadrante, São Paulo, 1995, p. 75.

domingo, maio 25, 2008

Bibliotecas, copistas e respeito pelo livro na Idade Média

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Texto extraído do livro "A Igreja das catedrais e das cruzadas", de Daniel-Rops*.


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No seu esforço de salvaguarda intelectual, o que a Igreja ensinou em primeiro lugar à humanidade foi o respeito pelo livro. Amava-se, venerava-se e rodeava-se de zelosos cuidados esse pesado caderno de pergaminho que continha a Palavra de Deus ou de um dos seus fiéis, e que, aliás, era raro e custava caro: uma biblioteca de 900 manuscritos era considerada imensa e causava espanto. "Morre desonrado quem não ama os livros", dizia um provérbio; e "um claustro sem livros é um castelo sem arsenal", dizia S. Bernardo (curioso como essas frases nasceram na dita "idade das trevas do conhecimento"...). As preciosas obras andavam de convento em convento, para que pudessem ser copiadas, e, no período negro das invasões normandas, a perda das bibliotecas era um dos desastres mais cruelmente sentidos.

A imagem do monge copista, debruçado sobre a sua escrivaninha ao longo de toda a jornada, caligrafando ou iluminando as páginas de um Evangelho ou de um Saltério, é uma daquelas que se fixam em todas as memórias. Essas multidões de anônimos a quem devemos o conhecimento que temos de Boécio, Santo Agostinho, São Jerônimo, como também de Virgílio, Terêncio, Ovídio e Horácio - esses escribas de Deus, graças aos quais a inteligência humana conservou o contato com o seu passado - deixaram-nos uma recordação viva, acompanhada de gratidão. Havia séculos que existiam centros muito célebres de cópias - e continuaram a existir do século XI ao século XIV: Saint-Gall, Reichenau, Fleury-su-Loire, Corbie e Monte Saint-Michel. Outros foram-se desenvolvendo, como Saint-Germain-des-Prés em Paris, ou Saint-Martial em Limoges. Cada um tinha o seu estilo no modo de traçar a letra - a antiga ou, depois, a uncial, derivada da minúscula carolíngia - e, sobretudo na arte de iluminar as maiúsculas iniciais ou de compor, numa página inteira, as maravilhosas miniaturas que nos encantam os olhos.

Assim, em Corbie, manteve-se um estilo proveniente da tradição carolíngia, constituído por uma extraordinária amálgama de vida e de abstração. Em Saint-Martial de Limoges, os iluminadores filiaram-se visivelmente à escola dos vitralistas e esmaltadores, o que resultou num gênero novo, com pequenas cenas regularmente dispostas. Já das oficinas de Paris começaram a sair essas obras-primas de realismo e liberdade que são os Saltérios de São Luís, em exposição na Biblioteca Nacional Francesa e no Museu Condé de Chantilly.

É difícil imaginar o tempo que era necessário para realizar essas obras. O número de linhas, em certas cópias da Bíblia, deixa-nos confusos. E a cor das miniaturas, obtida por camadas sucessivas, exigia, depois da secagem de cada uma, semanas de espera para o mais ínfimo pormenor. E assim, valendo-se do tempo, os copistas puseram-no a seu serviço e, no brilho do seu ouro, dos seus azuis luminosos, das suas púrpuras e dos seus tons profundos de violeta, esses artistas do manuscrito apresentam-nos ainda hoje a sua obra na intacta perfeição de uma eterna juventude.Quando, no século XIII, a cultura saiu dos conventos e das catedrais, e se instalou nas Universidades, os copistas seguiram o mesmo caminho. Sob a direção de mestres que eram clérigos, criaram-se oficinas dirigidas por leigos. As de Paris, centro intelectual da Europa, foram numerosas. Guillebert de Metz, no princípio do século XIV, assegura que, espalhados pela capital e em torno dela, havia sessenta mil copistas. O manuscrito tornou-se então uma indústria e a miniatura passou a ser feita em série. Mas isso não impediu que continuassem a surgir verdadeiras obras-primas, como o Breviário de Belleville, que Jean Belleville e a sua oficina realizaram por volta de 1320.

É interessante detalhar os métodos de trabalho dos copistas, segundo pesquisas recentes. O modelo da obra (exemplar) era depositado em casa de um "livreiro estacionário", depois de ter sido examinado por mestres especialistas designados pela Universidade. Estava dividido em cadernos ou peças numeradas. O mestre, estudante ou escriba profissional que quisesse transcrever determinada obra, alugava o modelo, peça por peça. Logo que tivesse copiado uma, entregava-a de volta. Podia acontecer que, por qualquer motivo, a peça 3, por exemplo, lhe fosse dada antes da peça 2; neste caso, ou deixava no seu caderno o espaço necessário, com risco de ter de se utilizar das margens, ou, se fosse pouco escrupuloso, não respeitava a ordem das peças, o que, durante muito tempo, deixou os filólogos perplexos. A lista dos exemplares disponíveis nos livreiros era anunciada na Itália pelo bedel das escolas; na França, era exposta nos dominicanos ou nos franciscanos, no dia em que os universitários assistiam a um ofício. Esta maneira de proceder originou talvez as nossas expressões: "pagar à peça" e "obra feita de peças e pedaços" (Cfr.Jean Destrez, La Pecia dans les Manuscrits universitaires, Paris, 1935).

* Daniel-Rops, da Academia Francesa

terça-feira, maio 20, 2008

Santo Tomás e o mundo contemporâneo

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Uma dica para quem gosta de filosofia medieval é ouvir a palestra sobre Santo Tomás e o mundo contemporâneo organizada pela Editora Sétimo Selo, por ocasião do lançamento do livro de Santo Tomás “Sobre o mal”.

O aúdio está dividido em seis partes e você pode baixar aqui.

segunda-feira, maio 19, 2008

Tudo obterás, se rezares com total confiança

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Um comentário belíssimo, pleno de fé e amor. Para ajudar aos que buscam perseverar no Caminho.

Comentário ao Evangelho feito por Hermas (séc. II) O Pastor

«Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!»

Expulsa a dúvida da tua alma, nunca hesites em dirigir a Deus a tua oração, dizendo: «Como posso eu rezar, como posso ser escutado, depois de ter ofendido a Deus tantas vezes?» Não raciocines dessa maneira; volta-te de todo o coração para o Senhor, e reza-Lhe com total confiança. Conhecerás então a extensão da Sua misericórdia; verás que, longe de te abandonar, Ele cumulará os desejos do teu coração. Porque Deus não é como os homens, que nunca se esquecem do mal; Nele não há ressentimentos, mas uma terna compaixão para com as Suas criaturas. Assim, pois, purifica o teu coração de todas as vaidades do mundo, do mal e do pecado [...], e reza ao Senhor. Tudo obterás [...], se rezares com total confiança.

Se, porém, a dúvida tomar o teu coração, as tuas súplicas não serão ouvidas. Aqueles que duvidam de Deus são almas dúplices; nada obtêm daquilo que pedem. [...] Quem duvida, a menos que se converta, dificilmente será ouvido e salvo. Assim, pois, purifica a tua alma da dúvida, reveste-te da fé, porque a fé é poderosa, e crê firmemente que Deus escutará todas as tuas súplicas. E, se Ele tardar um pouco a ouvir a tua oração, não te deixes arrastar pela dúvida por não teres obtido imediatamente aquilo que pedes; esse atraso destina-se a fazer-te crescer na fé. Não cesses, pois, de pedir aquilo que desejas. [...] Não te permitas duvidar, pois a dúvida é perniciosa e insensata, roubando a fé a muitos, incluindo os mais firmes. [...] A fé é forte e poderosa; tudo promete e tudo obtém; a dúvida, que é falta de confiança, tudo mina.

sábado, maio 17, 2008

O papel da mulher na Idade Média

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Consegui este texto na internet. É um trecho da obra de Régine Pernoud "Idade Média - o que não nos ensinaram". Não sei quem é o autor dos bons comentários que aparecem no meio do texto e no final.
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O papel da mulher na Idade Média

Há quem pense que na Idade Média o papel da mulher era o de submissão total e completo ostracismo. Há quem cogite que se pensava que a alma da mulher não era imortal - afirmação gratuitamente preconceituosa e contraditória (se a alma é espiritual e imortal, como a alma feminina não seria? Seria uma alma mortal?). Como a Igreja seria hostil a esses seres sem alma, mas durante séculos batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a essas criaturas? Não é estranho que os primeiros mártires cristãos tenham sido mulheres (Santas Agnes, Cecília, Ágata etc)? Como venerar a Virgem Maria como cheia de graça e considerá-la desalmada? A historiografia contemporânea simplesmente apagou a mulher medieval.

Por exemplo, no plano social. Dentro dessa perspectiva desapareceram da história personagens como Hilda de Whitby, que no século VII fundou sete mosteiros e conventos, ou quem sabe a religiosa alemã Hroswitha de Gandersheim, autora de dezenas de peças de teatro. Em Bizâncio, numerosas eram as mulheres na universidade. Anna Comnena fundou em 1083 uma nova escola de medicina onde lecionou por vários anos. Eleonora da Aquitânia, enquanto rainha, desempenhou um importante papel político na Inglaterra e fundou instituições religiosas e educadoras.
Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente em Rheims ou, por vezes, em outras catedrais. A coroação da rainha era tão prestigiada quanto a do Rei. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em 1610, na cidade de Paris. Algumas rainhas medievais desempenharam amplas funções, dominando a sua época; tais foram Eleonora de Aquitânia (+1204) e Branca de Castela (+1252); no caso de ausência, da doença ou da morte do rei, exerciam poder incontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de atividade pessoal. Verdade é que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que tivesse livre escolha do seu futuro consorte. Todavia observe-se que também o rapaz era assim tratado; por conseguinte, homens e mulheres eram sujeitos ao mesmo regime.

A mulher na Igreja

Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam notável papel na Igreja medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções eram respeitadas como as dos outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas usavam báculo, como o bispo... Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebia o dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma granja...Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste tempo, que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados. Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no século XII se deve a uma mulher, ou seja, à abadessa Herrade de Landsberg. Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de S. Hildegard de Bingen.Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de "teóloga". Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem. Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. Veio da abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o teatro da Idade Média.

Mulheres líderes

Algo inédito e que nos dias de hoje - tão democráticos - jamais aconteceria:
No século XII, Robert d'Arbrissel, um dos maiores pregadores de todos os tempos resolveu fixar a multidão de seguidores seus na região de Fontevrault. Para isso ele criou um convento feminino, um masculino e entre os dois uma Igreja que seria o único local aonde os monges e as monjas poderiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento. Para completar, a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. (um parêntesis: nos dias de hoje alguém imaginaria um acontecimento destes sequer ser considerado? Pois ele aconteceu na época em que os ignorantes costumam taxar como "Idade das trevas").

No período feudal o lugar da mulher na Igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem, mas este foi um lugar iminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem Maria entre os santos. E não é curioso como a época termine por uma figura de mulher - Joana D'Arc, que seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes obter a audiência do rei, sendo ela mulher, plebéia e ignorante, conseguindo mesmo assim suscitar a confiança que conseguiu, afinal. Pobre Joana D'Arc! Recentemente Luc Besson fez um filme de S. Joana D'Arc digna dos melhores hospícios, completamente esquizofrênica e que confundia sua vingança pessoal com o que seria a voz de Deus. Sem comentários.

A mulher comum

Faltaria falar das mulheres comuns, camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. A questão é muito extensa, e os exemplos podem chegar através de diversas fontes como documentos ou mil outros detalhes colhidos ao acaso e que mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências. Através de documentos, pôde-se constatar a existência de cabeleireiras, salineiras (comércio do sal), moleiras, castelãs, mulheres de cruzados, viúvas de agricultores, etc. É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real - muito diferente dos romances de cavalaria ou de fontes literárias que apresentam a mulher como um ser frágil, ideal e quase angélico - ou diabólico - mas que não tinha voz nem vez. Existem documentos demonstrando como em muitos locais, mulheres e homens votavam em assembléias urbanas ou comunas rurais. Ouve um caso curioso: Gaillardine de Fréchou foi uma mulher e a única pessoa que, diante da proposta de um arrendamento aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint Savin, votou pelo Não, quando a cidade inteira votou pelo Sim. Nas atas dos notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos, desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.

***

Estas informações foram retiradas da mundialmente conhecida medievalista Régine Pernoud, em seu livro Idade Média - o que não nos ensinaram. A autora consultou e teve acesso a documentos originais da época, quando não de informações contidas em fontes confiáveis.



Nos nossos dias, pouco ouvimos falar do papel da mulher na Idade Média. E quando ouvimos, muitas vezes de forma deturpada.
O papel da mulher na sociedade, aliás, a própria sociedade medieval, segundo a autora, passaram por mudanças lentas a partir do século XIII, com o ressurgimento do chamado direito romano, que aos poucos suplantou o direito medieval (eclesiástico).
Pelas constatações, vê-se que hoje em dia a maioria das mulheres têm muito o que fazer para reencontrar o lugar que foi seu nos tempos da rainha Eleonora ou da rainha Branca..

quinta-feira, maio 15, 2008

De repente caiu a ficha

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Estava pensando no mundo, em Deus e no Juízo, fim do mundo, Idade da Sombras e coisas do tipo quando de repente caiu a ficha e eu pensei “Ele ama mesmo a gente”. Ele mandou Seu Filho muito amado, O Amado, para a Terra para nos trazer a Boa Nova. Gente que amor é esse? É grande demais para que eu possa compreender.

Nada disso é fácil de entender. Mas de uma maneira que só a Graça explica, estou conseguindo enxergar certas coisas e me perguntando como é que eu não tinha descoberto sobre elas antes. Creio realmente que Ele tirou uma venda dos meus olhos para algumas questões. Certas coisas para mim agora estão muito claras. Estou num processo de reforma. Voltando a forma original, ao modelo que ele criou. Sei que ainda estou muito distante nessa caminhada de retorno. Não tem problema, o importante é começar.

sexta-feira, maio 09, 2008

O Silêncio e o medo de nós mesmos

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Estava conversando com uma amiga no trabalho quando ela disse que tirou os relógios do quarto. Explico: ela tinha muitos (não sei quantos) relógios no quarto dela, pois gostava de dormir ouvindo o tique-taque. Ela então resolveu tirar todos e me perguntou onde encontrar um “mensageiro dos ventos”, pois quer “mudar de barulho”, quer um “barulho” mais agradável.

Na verdade ela terminou confessando que não suporta o silêncio, pois é aí que começa a ouvir os pensamentos dela. E ela não quer pensar no que ela é não quer lembrar dos problemas, tem medo de descobrir o que está guardado em sua mente e seu coração.

Outra colega que estava próxima disse que sente o mesmo. O quarto dela é bastante silencioso, com isolamento acústico e tudo. Mas ela não gosta quando demora a dormir, pois os pensamentos começam a aflorar e ela não quer pensar nela mesma.

O silêncio é muito importante por isso mesmo: porque cada um pára para pensar em si mesmo. É um momento valioso que pode ser aproveitado para o exame de consciência que vai mostrar onde se está errando.

Os dias atuais são de imensa correria e barulho justamente porque as pessoas fogem de si mesmas o tempo todo, como se isso por si só resolvesse os problemas. Ligam a tevê, o aparelho de som, o computador, agitam-se, querem fazer coisas o tempo todo, não querem parar e pensar no que estão fazendo com suas vidas. E justamente essa auto-avaliação é que poderá trazer soluções para seus conflitos e consequentemente alguma paz para seus espíritos.

Não dá pra fugir da realidade. É pior. Esconder-se feito criança dos problemas e das dores não ajuda. O exame de consciência pode suscitar o arrependimento sincero, o que leva a pessoa de volta para O Caminho.


“Silence is golden!”


quarta-feira, maio 07, 2008

Angústia cristã

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Desde que me tornei cristã passei a viver uma angústia diferente daquela vivida pelos céticos e sartreanos por aí. É uma angústia que não leva ao desespero, apenas ao medo de não ser aceita por Deus. É calcada também no fato de agora eu acreditar que a vida é uma só e a chance de uma vida melhor eu devo agarrar agora, sendo que essa vida melhor é o Céu, eterno. Não há volta, não há mais escolhas a serem feitas. Ou eu sou salva agora ou pereço. É tudo ou nada. Mas esse "nada" é o inferno. É angustiante! Não sofria com isso antes, mas não troco a vida que tenho agora, de cristã, pela que tinha antes, cheia de um otimismo estúpido e irreal.

A realidade é dura e bela ao mesmo tempo. E a maior beleza é ter a esperança de que Deus nos ama tanto e é tão misericordioso que pode aceitar em Sua presença pecadores como nós.

segunda-feira, maio 05, 2008

O valor absoluto

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Um monge hindu dizia com muito acerto: “Deus é a unidade sem a qual só existem zeros”. Com efeito, Deus é, por definição, o Ser Absoluto – o que significa: o Valor Absoluto. Deus é, sim, o Valor que torna valiosa toda e qualquer criatura, e sem o qual esta é vazia e enganadora. Imaginemos uma série de três zeros, outra de seis, outra de nove zeros:

000 000.000 000.000.000

Os zeros que se acrescentam aos zeros nada alteram; tudo fica sendo zero... Mas coloquemos o número Um, uma só unidade, coisa simplicíssima, na série... Se pusermos o “Um” em último lugar, o conjunto, por mais longo que seja, ficará valendo muito pouco, será uma ninharia... Se o colocarmos em penúltimo lugar, já o conjunto valerá dez, o que ainda é muito pouco... Caso ponhamos a unidade em terceiro, em quarto, em quinto lugar, a série irá aumentando de valor (cem, mil, dez mil...). Finalmente, se se coloca o número Um à frente de cada série, ter-se-á:

1.000 = mil
1.000.000 = um milhão
1.000.000.000 = um bilhão

Coisa estupenda! Os zeros tomam imenso valor desde que o “Um” lhes seja anteposto e os ilumine. Pois bem; Deus é esse “Um” sem o qual as criaturas nada são.

Se Deus ficar em último lugar na vida do homem, esta se apresentará sempre como insípida bagatela, ninharia vazia... Uma vez, porém, que se ponha Deus incondicionalmente em lugar capital, cada bagatela, cada zero da vida toma valor imprevistamente grande.

O homem pode acumular mil bens criados no seu tesouro; se chegarem a fazer empalidecer ou a remover a face de Deus no horizonte do indivíduo, esses bens, por mais numerosos que sejam, equivalerão a uma longa série de zeros; deixarão o seu possuidor sempre frustrado e insatisfeito...

Mas se o cristão puser Deus à frente de cada criatura e procurar ver tudo sob a perspectiva dEle, então e somente então esse homem começará a compreender o valor das criaturas; começará a compreender também que seguir Cristo é o maior de todos os bens e que a vida, vivida em fidelidade absoluta ao Senhor, vale, apesar de tudo, a pena de ser vivida!


Fonte: “Páginas dfíceis do Evangelho”, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1993.

quinta-feira, maio 01, 2008

O trabalho na Idade Média

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Dois textos sobre o trabalho na época medieval. Os grifos são meus.

Primeiro a historiadora medievalista Régine Pernoud:

Seria ainda necessário assinalar a influência exercida pela doutrina eclesiástica no regime de trabalho; o direito romano apenas conhecia, nos contratos de arrendamento ou de venda, a lei da oferta e da procura, enquanto no direito canónico e depois dele o direito consuetudinário submetem a vontade dos contraentes às exigências da moral e à consideração da dignidade humana. Isto devia ter uma profunda influência nos regulamentos dos mestres, que proibiam à mulher os trabalhos demasiado fatigantes para ela, a tapeçaria de tear alto, por exemplo; o resultado foram também todas aquelas precauções de que se rodeavam os contratos de aprendizagem e o direito de visita concedido aos jurados, tendo por fim controlar as condições de trabalho do artesão e a aplicação dos estatutos. Sobretudo, é preciso apontar como muito revelador o facto de ter alargado ao sábado de tarde o repouso de domingo, no momento em que a actividade económica se amplifica com o renascimento do grande comércio e o desenvolvimento da indústria.

Uma revolução mais profunda tinha de ser introduzida pelas mesmas doutrinas no concernente à escravatura. Notemos que a Igreja não se ergueu contra a instituição propriamente dita da escravatura, necessidade económica das civilizações antigas. Mas lutou para que o escravo, tratado até então como uma coisa, fosse daí em diante considerado como um homem e possuísse os direitos próprios da dignidade humana; uma vez obtido este resultado, a escravatura encontrava-se praticamente abolida; a evolução foi facilitada pelos costumes germânicos que conheciam um modo de servidão muito suavizado; o conjunto deu lugar à servidão medieval, que respeitava os direitos do ser humano e apenas introduzia, como restrição à sua liberdade, a ligação à gleba. É curioso constatar que o facto paradoxal da reaparição da escravatura no século XVI, em plena civilização cristã, coincide com o retorno geral ao direito romano nos costumes.

Pernoud, Régine. Luz sobre a Idade Média. Publicações Europa-América. 1997. pp. 86-87.


Trecho extraído do blog de Alphonse van Worden:

O sociólogo e economista marxista alemão Robert Kurz, para além de suas controversas, malgrado percucientes análises a propósito da configuração atual do ‘sistema produtor de mercadorias’, tem sido particularmente útil no desmonte de certas ficções pseudo-revolucionárias, de origem mormente iluminista. Em seu livro Os Últimos Combates podemos encontrar, em diversos ensaios, referências positivas a respeito da sociedade feudal frente ao processo de modernização que iria redundar, a partir dos séculos XVII e XVIII, na consolidação do capitalismo.
Kurz salienta, com freqüência e sempre de modo enfático, que a vida dos camponeses, servos e artesãos medievais era, de uma maneira geral, mais livre e confortável que o padrão de vida do proletariado, e mesmo da classe média baixa, nos séculos XIX e XX. No ensaio Escravos da luz sem misericórdia, por exemplo, o autor alemão, fazendo um cotejo entre a duração da jornada de trabalho na atualidade e no período medieval, nos diz ser possível constatar, por intermédio da consulta a documentos da época, "que a jornada de trabalho dos servos nas glebas 'devia durar da alvorada ao meio-dia'. Ou seja, a jornada de trabalho era mais reduzida do que hoje não apenas em termos absolutos, mas também relativos, por variar conforme a estação e ser menor no inverno que no verão" (pág.250); n'outra passagem do mesmo texto, escreve o seguinte: "Nos séculos XVIII e início do XIX, tanto o prolongamento absoluto quanto o relativo da jornada de trabalho, por meio da introdução da hora econômica abstrata, foram sentidos como uma tortura. Por muito tempo, houve uma luta desesperada contra o trabalho noturno ligado à industrialização. (...) Quando na Idade Média calhava de os artesãos trabalharem à noite por razões de prazo, cabiam-lhes lautos repastos e salários principescos. O trabalho noturno era uma rara exceção. E consta das grandes 'façanhas' do Capitalismo ter logrado converter o aguilhão tempo em regra geral da atividade humana"(pág.251). Na conclusão deste texto, Kurz faz uma severa crítica ao próprio pensamento marxista, que se converte em 'religião do trabalho': "O Marxismo, em contraste à sua própria pretensão social, foi um protagonista do 'trabalho abstrato', à medida que sucumbiu ao pensamento mecanicista do Iluminismo e a seu pérfido simbolismo da luz" (pág.253).