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quarta-feira, outubro 28, 2020

Comentários Eleison: Família Afortunada

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Comentários Eleison  –  por Dom Williamson

Número DCXCIII (693) – (24 de outubro de 2020)

 

 

FAMÍLIA AFORTUNADA

 

Uma família pode sobreviver, mesmo nos dias de hoje.

Com a graça de Deus, "Onde há vontade, há uma maneira".

 

 

Quando o horizonte está, humanamente falando, tão obscuro ao redor, e quando as forças demoníacas tentam separar a família por ser esta o meio designado por Deus para iniciar os seres humanos no caminho para o Seu Céu, então pode ser um bom momento para resumir para os leitores destes “Comentários” um e-mail enviado ao editor pelo pai de uma família de oito filhos nos Estados Unidos que não está desesperado nem assustado. Ele mora no meio do nada, e assiste à Missa apenas uma vez por mês em uma capela tradicional próxima. Mas manter a sanidade ainda é possível. Aqui está a essência de seu e-mail.

 

Espiritualmente e sacramentalmente continuamos sobrevivendo com a Missa mensal na nossa capela da Resistência, da qual precisaremos enquanto tivermos necessidade da Missa e dos Sacramentos. E não vejo que essa necessidade (ou a crise na Igreja) acabe tão cedo. A capela está pronta e funcionando, mas tem havido poucos comparecimentos nas últimas duas Missas. Por várias razões, um bom número de católicos tradicionais parece estar cedendo ao pânico induzido pela grande mídia.

 

Nossa família está bem; não temos nenhuma queixa. Estamos esperando nosso nono filho para breve. Tivemos outro menino recentemente. Todos percebem como ele é diferente das meninas. Explora tudo, mete-se em tudo, está mais interessado nas “coisas” – máquinas, equipamentos, etc. – do que nas pessoas. Como temos várias meninas, realmente notamos as diferenças inatas entre meninos e meninas. Nossos filhos gostam de música, porque estou ensinando-os a amar e apreciar música com melodia, harmonia, ritmo e boas letras. Escutamos música folclórica, especialmente a irlandesa, música instrumental variada, clássica e canto. Qualquer canção vinda de um lugar de angústia, desespero, depressão, ódio, etc. é má, feia, e a evitamos.

 

Tenho trabalhado em tempo integral em meu escritório em casa em uma obra católica que parece estar ganhando mais força a cada ano que passa, ao contrário da FSSPX que já teve o pacote completo da verdade, mas está perdendo-o ano após ano. Se essa obra católica continuar sendo fiel à Verdade como tem sido, eventualmente terá que se tornar totalmente Tradicionalista, ou mudará de rumo/trairá em algum momento. Não há outra opção. Também trabalho manualmente em nossos jardins, que acabamos de ampliar, tendo aprendido sobre o método de jardinagem “De volta ao Éden” há um par de anos. Nosso solo é argila pura e muito pobre, mas com adubo se pode imitar a natureza de Deus, deixando que um solo rico se forme a partir de matéria orgânica em decomposição. Com uma fonte recentemente descoberta de lascas de madeira grátis, posso fazer grandes quantidades de meu próprio adubo. Então, todas as crianças estão me ajudando a usar essa nova técnica para tratar nossas árvores frutíferas e começar os canteiros. Esperamos que em breve possamos cultivar uma quantidade decente de alimentos aqui. Nossos dois canteiros de jardim medem ca. de 500 metros quadrados, até agora.

 

Estamos especialmente preocupados com os resultados da eleição deste ano. Minha intuição é que 2020 fará com que 2016 pareça uma brincadeira de crianças. Depois, há toda a loucura do covid-19 e os distúrbios em todo o país por um homem negro que teve uma overdose de Fentanil. Talvez a luta seja apenas entre os maus (Deep State) e alguns menos maus (Trump e seus associados) ou entre rivais. Será que Trump é apenas menos mau, ou seja, ele não participou do sacrifício de crianças, da tortura de crianças, e de outras práticas diabólicas que o resto deles realizam? Minhas esperanças são limitadas. Ainda assim, não acho que Trump esteja do lado do Deep State. Vou votar nele por causa de suas ações sem precedentes contra o aborto e a favor da liberdade em geral.

 

Estamos bem financeiramente, graças às muitas bênçãos de Deus. Mas a maior bênção foi que aprendi na adolescência sobre os males da usura dos banqueiros. Sem essa compreensão da economia, eu poderia ser inocente e sem pecado, mas ainda estaria mergulhado em dívidas e misérias relacionadas. Além disso, minha esposa tem um jeito de ser frugal, então sempre vivemos dentro de nossas possibilidades, renunciando a muitos luxos e trabalhando duro, e agora estamos colhendo os benefícios. Agora estamos totalmente livres de dívidas, mesmo com oito filhos e apenas uma renda modesta. Salientei para meus filhos que foram necessários anos de frugalidade e trabalho árduo, mas no final das contas isso é algo que pode ser feito.

 

Quanto à capela local, infelizmente muitas almas vêm e não voltam depois, mas hoje algumas procuram uma Missa Tridentina onde possam continuar a receber a Sagrada Comunhão na língua, já que é algo que está proibido pela nossa diocese oficial por motivos de “covid”. Sinto muito pela Tradição que depende da Igreja oficial! Muitas vezes me pergunto por que Deus está permitindo tantos reveses para a Tradição. Ele está purificando o remanescente, buscando mais qualidade do que quantidade? Tanto entre os não católicos quanto nas famílias católicas tradicionais, mesmo quando os pais parecem bastante firmes, não vejo seus filhos “ocupando totalmente seu lugar” na próxima geração. As marés do Mundo batem neles implacavelmente, desgastando-os, alguns ligeiramente, outros em grande medida, enquanto outros colapsam completamente. Verdadeiramente, se estes dias não forem abreviados, nem mesmo os eleitos se salvarão.

 

Kyrie eleison.

Comentários Eleison: Madiran - A Filosofia

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Comentários Eleison  –  por Dom Williamson

Número DCXCII (692) – (17 de outubro de 2020)



MADIRAN – A FILOSOFIA


Tal como a "arte" moderna se livra das coisas visíveis,

Assim o “pensamento” moderno traz consigo um caos ímpar.


Assim como o Papa Pio X em sua grande Encíclica antimodernista de 1907, a Pascendi, Jean Madiran, em seu livro “A Heresia do Século XX”, parte da filosofia, porque ambos percebem que o problema que torna tão difícil para as mentes modernas compreenderem realmente o catolicismo é antes filosófico que teológico. Assim, a primeira das seis partes do livro de Madiran tem como título "Preâmbulo filosófico".


Surpreendentemente, o próprio Madiran diz aos leitores que eles podem pular o Preâmbulo se quiserem, mas ele só pode tê-lo feito para poupar muitos leitores modernos que são como que alérgicos às absurdidades delinquentes que procedem das chamadas “universidades” de hoje. Na verdade, o argumento do livro de Madiran é tão dependente da verdadeira filosofia quanto independente da "filossofisma" ou pseudofilosofia de hoje.


Mas como e por que a Fé sobrenatural pode ser tão dependente da filosofia, que é o estudo racional de toda a realidade natural, a elevação do (verdadeiro) senso comum, de um nível amador a um profissional, por assim dizer? Eis a resposta: um bom vinicultor não depende de garrafas de vidro limpas e sem rachaduras para fazer um bom vinho, mas ele não pode dirigir seu negócio de vinhos sem essas garrafas, porque se todas as garrafas estiverem sujas por dentro, ninguém vai comprar seu vinho, por melhor que este seja. O vinicultor pressupõe que obterá automaticamente garrafas limpas. Comparada com o vinho, a garrafa de vidro não vale quase nada quando está vazia, mas é absolutamente necessária, sem rachaduras e sem sujeira, para que o vinicultor possa conter seu vinho.


Ora, a razão humana é como a garrafa. É apenas uma faculdade natural, mas quando chega à morte deve conter o vinho sobrenatural da Fé, sob pena de condenação eterna (Mc. XVI, 16). A Fé é um dom supremo de Deus pelo qual a razão de um homem é sobrenaturalmente elevada para crer, mas se essa faculdade da razão for suja por erros e crenças humanas, então, como a garrafa suja, corre o risco de sujar o vinho da crença de Deus, por mais divina que seja essa crença em si mesma. Ora, apenas um pouco de sujeira na garrafa estragará o vinho que ela contém, mas o modernismo na mente é um erro tão radical que estragará, ou minará, qualquer Fé vertida nessa mente. E como o vinho vertido em uma garrafa suja não pode evitar que seja estragado, a Fé católica vertida em uma mente moderna dificilmente pode evitar ser minada. Assim ensinam Pio X, de Corte, Calderón e Madiran, junto com todos os outros que perceberam toda a malícia objetiva de uma mente modernista.


Então, como Madiran em particular prova que os Bispos franceses na década de 1960 já não tinham mentes católicas? Ele parte de uma declaração oficial deles mesmos em dezembro de 1966 (p. 40) onde afirmam que "para uma mente filosófica", as palavras "pessoa" e "natureza", cruciais para a Cristologia (teologia católica de Cristo), mudaram seu significado desde os tempos de Boécio (que elaborou a definição de “pessoa”) e de Tomás de Aquino (que fortaleceu o verdadeiro sentido de “natureza”). Em outras palavras, para os Bispos franceses, a filosofia moderna deixou para trás a filosofia clássica da Igreja incrustada na doutrina imutável da Igreja, de modo que, para eles, o tomismo é obsoleto "para uma mente filosófica", e deve ser descartado.


Mas em uma Igreja cuja doutrina sempre correspondeu ao que nunca muda na realidade extramental, esta perspectiva dos Bispos franceses é absolutamente revolucionária. Isso só pode significar, diz Madiran (43), que eles aceitam a revolução copernicana na filosofia de Immanuel Kant (1724-1804), que colocou a “realidade” não mais fora, mas dentro da mente. No entanto (45, 46), somente na filosofia kantiana existe uma obrigação de aceitar essa internalização da realidade. Somente sob suas próprias premissas se deve chegar às suas conclusões irreais. Por sua escolha moral de Kant em vez de Aquino, os Bispos franceses demonstraram de fato sua apostasia implícita (50) e sua religião antinatural. Declararam sua independência da Verdade de Deus rechaçando a realidade de Deus e da Ordem que Ele implantou na Natureza (60-63).


Madiran conclui sua Parte I dizendo que enquanto o tomismo corresponde à experiência humana de todos os tempos e todos os lugares (66), o kantismo deixou os Bispos franceses mentalmente à deriva, como está a era moderna que eles buscam agradar (67).


Kyrie eleison.

segunda-feira, abril 20, 2020

Comentários Eleison: A Oração de Daniel

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLXVI (666) – (18 de abril de 2020):




A ORAÇÃO DE DANIEL 


Nossos pecados são aquilo que nos causa todos os nossos infortúnios.
Arrependamo-nos, ou esses males crescerão.

A Internet está atualmente cheia de comentários e análises, um mais interessante que o outro, sobre o coronavírus e o turbulento estado das finanças em todo o mundo, mas poucos desses comentários abordam o que é mais importante de tudo neste duplo – ou único – transtorno, que é aquilo que mostra as relações entre todos os homens e seu Deus: a apostasia em todo o mundo. Este é um crime enorme, pelo qual o colapso do coronavírus é um castigo não remotamente tão pesado quanto os flagelos que se seguirão se os homens não voltarem para Deus. Mas, tal como as coisas estão, uma multidão de Seu próprio Povo Eleito pela Fé, os católicos, segue alegremente o Vaticano II, porque este afrouxou a velha disciplina e permitiu-lhes adorarem-se a si mesmos em vez de a Deus. Todos nós deveríamos estar de joelhos, pedindo perdão a Deus, como o fez Daniel no Antigo Testamento. Aqui está sua poderosa oração de IX, 3-19, que precisa ser só um pouco adaptada para o Novo Testamento e os tempos atuais:

[3] E voltei o meu rosto para o senhor meu Deus, para lhe rogar e suplicar com jejuns, saco e cinza. [4] E orei ao Senhor meu Deus, e fiz confissão das faltas, e disse: digna-te ouvir-me, ó Senhor Deus grande e terrível, que guardas a tua aliança e a tua misericórdia para com os que te amam, e que observam teus mandamentos. [5] Nós os católicos pecamos, cometemos iniquidade, procedemos impiamente, apostatamos e afastamo-nos no Vaticano II dos teus preceitos e das tuas leis. [6] Não temos obedecido aos teus servos, os Papas fieis, que falaram em teu nome aos nossos reis, aos nossos presidentes, aos nossos pais, e a todo o povo cristão. [7] Tua é, ó Senhor, (da tua parte está) a justiça; a nós, porém, não nos resta senão a confusão de nosso rosto, como sucede hoje aos católicos, aos habitantes de Roma, e a toda a igreja e aos que estão perto e aos que estão longe em todos os países, para onde tu os lançaste, por causa das iniquidades que cometeram contra ti. [8] Para nós, Senhor, a confusão do rosto, para os nossos reis, para os nossos presidentes, e para os nossos pais, que pecaram. [9] Mas de ti, ó Senhor nosso Deus, é própria a misericórdia e a propiciação; porque nos retiramos de ti, [10] e não ouvimos a voz do Senhor nosso Deus, para andarmos segundo a sua lei, que nos prescreveu por meio dos seus servos, os Papas e os Bispos fieis. [11] E toda a Cristandade violou a tua lei, e desviou para não ouvir a tua voz, e choveu sobre os católicos conciliares a maldição e a execração que está escrita no livro de Moisés, servo de Deus, porque pecamos contra Deus. [12] E cumpriu a sentença que proferiu contra nós e contra os nossos líderes que nos governaram, para fazer vir sobre nós esta calamidade grande, qual nunca se viu debaixo de todo o céu, como o que aconteceu pelo Vaticano II. [13] Todo esse mal caiu sobre nós, segundo está escrito na lei de Moisés, e nós não recorremos a ti, ó Senhor nosso Deus, de maneira a nos afastarmos das nossas iniquidades e a nos aplicarmos ao conhecimento da tua Verdade. [14] Assim o Senhor vigiou sobre a malícia, e fez cair sobre nós o castigo dela; o Senhor nosso Deus é justo em todas as obras que fez, porque nós não ouvimos a sua voz. [15] E agora, Senhor nosso Deus, que tiraste os católicos do mundo ímpio com mão poderosa, e que adquiriste então um nome que dura até o dia de hoje, (confessamos que) temos pecado, que temos cometido iniquidade. [16] Senhor, por toda a tua justiça (ou misericórdia), suplico-te que aplaques a tua ira e o teu furor contra tua Igreja, e contra o teu santo monte; porque a Igreja Católica é hoje o escárnio de todos os que nos cercam, por causa dos nossos pecados e das iniquidades dos sacerdotes do Concílio. [17] Atende, pois, agora, Deus nosso, a oração do teu servo, e as suas preces; e sobre o teu santuário, que está deserto, faze brilhar a tua face, por amor de ti mesmo. [18] Inclina, Deus meu, o teu ouvido, e ouve; abre os teus olhos e vê a nossa desolação, e a da Igreja, na qual se invocava o teu nome; porque nós, prostrando-nos em terra diante da tua face, não fazemos estas súplicas (humildes) fundados em alguns merecimentos da nossa justiça, mas sim na multidão das tuas misericórdias. [19] Ouve, Senhor, aplaca-te, Senhor; atende-nos e põe mãos à obra; não dilates mais, Deus meu, por amor de ti mesmo, porque esta tua Igreja e este teu povo têm a glória de se chamarem do nome de teu Filho unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Kyrie eleison.

segunda-feira, março 23, 2020

Comentários Eleison: Malícia do Modernismo - III

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLXII (662) – (21 de março de 2020):


Malícia do Modernismo – III



No princípio era meu altíssimo intelecto.
Ele deixa bastante para trás a pobre realidade de Deus!

Se existe algo que um sacerdote católico precisa conhecer e compreender a fundo hoje em dia, é a frase fundamental no coração da grande carta encíclica de São Pio X, Pascendi, escrita em 1907 para defender a Igreja e a humanidade da ameaça mortal do modernismo. O modernismo é o movimento de pensamento e ação pelo qual os homens deixam de mudar o mundo para adaptá-lo a Cristo e Sua Igreja, e trabalham, em vez disso, para mudar Cristo e Sua Igreja para adaptá-los ao mundo moderno. E qual é a frase fundamental da Pascendi pela qual isto deve ser feito? Ei-la, retirada do parágrafo 6 (ou de outro próximo) da Encíclica:

“A razão humana está completamente confinada no campo dos fenômenos, isto é, das coisas perceptíveis aos sentidos e da maneira com que são perceptíveis; ela não tem o direito nem o poder de ir além desses limites”.

Em outras palavras, a mente humana, que na verdade lê o dia inteiro por trás do que aparece aos sentidos, é finalmente declarada pelo homem moderno como incapaz de ler por trás das aparências! Em outras palavras, o que me parece uma porta poderia ser uma parede, o que me parece uma parede pode ser de fato a porta. Do que se deduz que pode ser melhor eu tentar atravessar a parede do que atravessar a porta! Certamente, essa é uma estupidez tão grande que ninguém ficará surpreso ao saber que mesmo os seguidores modernos de Immanuel Kant (1732-1804), que inventou a estupidez, raramente tentam atravessar paredes. Em outras palavras, eles conseguem viver sem levar a sério a sua própria filosofia. Eis por que a filosofia moderna ficou com uma reputação tão ruim. No entanto, o completamente estúpido Kant reina supremo nos departamentos de filosofia de quase todas as "universidades" de nosso tempo! Como isso pode ser possível?

Porque Kant é o grande libertador. Foi ele quem de uma vez por todas libertou a mente da realidade. Foi ele quem decretou que a mente está livre da realidade externa porque não tem acesso a ela! A mente não pode chegar à realidade tal como é em si mesma, o "Ding an sich", porque não pode ir para o que está por trás do que os sentidos lhe mostram. Não importa se eu posso viver apenas assumindo vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, que meus sentidos me estão dizendo o que é real ao meu redor, como o que minha mente ou intelecto é capaz de decifrar aquilo, ou ler dentro daquilo, que meus sentidos me mostram. A partir de Kant, a realidade à minha volta é cada vez menos interessante. O que importa é a "filosofia transcendental", como ele a chama, ou seja, o pensamento que subirá às alturas e penetrará as profundezas da minha fantasia com independência total da realidade enfadonha do cotidiano, como as portas e as paredes. Minha mente decolou! Minha mente está livre da realidade! De agora em diante, tudo o que eu quero é "verdadeiro"! De fato, a palavra "Verdade" assumiu um significado muito diferente. De fato, todas as palavras adquirem um significado transcendental. A liberdade reina na minha cabeça!

No entanto, se alguém insistir em levar-me de volta ao que chama o mundo real, ainda posso optar por assumir, como todos os pobres não universitários, que para continuar sobrevivendo (“ui!”) no mundo enfadonho (“ui!”), é melhor não tentar atravessar aquilo que parece parede, e é melhor não tentar comer pedras. Em outras palavras, minha mente é transcendentalmente superior a, e livre de, todo o seu "senso comum" ("ui!"), Mas ainda posso operar de acordo com ele – quando eu escolher – para propósitos da vida diária ("ui!”).

Ora, a liberdade é a verdadeira religião do homem moderno, e é a religião aparente, aquela que tem na vida de muitos católicos todas as aparências, mas nada da substância da verdadeira religião. Como diz São Paulo: "No final dos tempos... os homens... manterão a forma da religião, mas negarão o poder dela" (II Tim. III, 1-5), em outras palavras, manterão as aparências, mas negando a substância. O que são esses católicos? Eles são precisamente católicos kantianos, ou modernistas, porque quase todo mundo hoje em dia é kantiano, porque quase todo mundo hoje em dia adora a liberdade, e foi Kant quem finalmente lhes deu a chave para sair da prisão da realidade de Deus e escapar para as nuvens da modernidade transcendental. Sempre posso submeter-me a Deus novamente pelo tempo que eu quiser, mas Ele não pode mais manter-me em cativeiro. Eu sou livre, eu sou livre, eu sou livre!

A incrível perversidade, o incrível orgulho e a incrível perfídia de Kant deveriam começar a serem expostos. Mais do que nunca,

Senhor, tende piedade.


domingo, março 15, 2020

Comentários Eleison: Malícia do Modernismo - II

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLXI (661) – (14 de março de 2020):


Malícia do Modernismo – II


Ante Deus, somente a humildade convém ao homem.
Ante Deus, o orgulho, se puder, destrói um homem.

A malícia do modernismo é um assunto muito extenso, e não menos do que aquele de um mundo inteiro voltando-se contra seu Criador no final de um processo que dura vários séculos, desde que, no auge da Idade Média, a Cristandade tombou, passando da ascensão para a queda. A ascensão havia começado no ano 33 d.C., evidentemente, quando Nosso Senhor Encarnado fundou a única Igreja verdadeira de Deus com Seu sacrifício na cruz. A Idade Média poderia ser datada desde o Pontificado de Gregório Magno (590-604) até a eclosão do protestantismo e o início da era moderna em 1517, tendo durado quase um milênio.

Mas havia uma grande diferença, naturalmente, na atitude da humanidade em relação a Cristo e Sua Igreja antes e depois da Idade Média: antes da Idade Média, o Cristianismo se mostrava cada vez mais como sendo o melhor fundamento para a civilização, enquanto após a Idade Média isto passou a ser demonstrado amplamente, de modo que, nesse período, sua superioridade em relação a todas as outras religiões teve de ser reconhecida mesmo enquanto ele estava sendo recusado na prática. Isso significa que todos os pretendentes substitutos do Catolicismo que surgiram após a Idade Média são caracterizados por uma hipocrisia que precisava ser cada vez mais sutil para que eles pudessem fazer-se passar por verdadeiros substitutos do Catolicismo.

Assim, Lutero rejeitou brutalmente o Catolicismo, mas ainda fingiu que sua revolução era uma "Reforma", e depois que a Igreja Católica o expulsou, os jansenistas revolucionários criaram no século XVI uma forma protestante de catolicismo. Os jansenistas, por sua vez, transformaram-se em liberais no século XVIII, fingindo ter em sua maçonaria um culto iluminado superior ao dos protestantes e ao dos católicos, e quando a verdadeira Igreja repudiou resolutamente a Maçonaria no mesmo século XVIII, então os liberais se disfarçaram de católicos liberais no século XIX, e de liberais “atualizados” ou superiores aos católicos no século XX. São Pio X rapidamente diagnosticou e descartou esse modernismo na Pascendi, mas este, fazendo-se passar ainda mais sutilmente por um catolicismo atualizado, varreu com ele quase toda a Igreja no Vaticano II (1962-1965); e, no século XXI, o disfarce já era tão bom que até mesmo a Fraternidade Sacerdotal São Pio X oficial, fundada para resistir a esse neomodernismo, também foi essencialmente varrida.

Humanamente falando, é assustador perceber em 2020 como resta pouca resistência católica a essa ascensão do Diabo e a seus ataques contra a Igreja, mas foi isso que o Deus Sapientíssimo escolheu permitir, e, sem dúvida, Ele ainda está cuidando de Seu “pequeno rebanho”, como Nosso Senhor o chama: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso pai dar-vos (seu) reino. Vendei o que possuis, e dai esmola. Provede-vos de tesouro inexaurível no céu, aonde não chega o ladrão, e (ao qual) a traça não rói. Porque onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso coração”. (Lc. XII, 32-34). Em outras palavras, renuncie ao dinheiro e ao materialismo, porque Nosso Senhor nos adverte que não podemos servir a dois deuses ao mesmo tempo, e se servimos a Mamon, não podemos servir a Deus (Mt. VI, 24).

E se reconhecermos como somos vulneráveis aos erros, às mentiras e às blasfêmias sutis do diabo que dominaram o mundo que nos rodeia, então, como antídoto, rezemos o Rosário de Nossa Senhora, de preferência todos os 15 Mistérios por dia, porque Ela e somente Ela o coloca sob seus pés, como qualquer boa imagem dela, quadro ou estátua, nos lembra; e hoje em dia o mal é tão avassalador que os 15 mistérios não são demais, se rezá-los integralmente for razoável e possível.

E como é que uma humilde donzela judia pode ser mais forte do que Satanás com todas as suas "pompas e obras" é o segredo de Deus revelado tanto por Nosso Senhor: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos pequeninos” (Mt. XI, 25), como por São Paulo: “Mas as coisa loucas segundo o mundo escolheu-as Deus para confundir os sábios; e as coisas fracas segundo o mundo escolheu-as Deus para confundir os fortes” (1 Cor. I, 27). Na próxima semana, veremos mais atentamente a hipocrisia do modernismo.

Kyrie eleison.

domingo, março 08, 2020

Comentários Eleison: Malícia do Modernismo - I

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLX (660) – (7 de março de 2020):


Malícia do Modernismo - I


Líderes católicos, quando vocês compreenderão,
A praga que está cravada em sua Igreja?

Se a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não é mais uma destacada ponta de lança da defesa da Fé Católica, como foi sob o Arcebispo Lefebvre (1905-1991), isso certamente se deve a que seus sucessores à frente da Fraternidade nunca entenderam tão bem quanto ele toda a malícia desse erro que está devastando a Igreja atualmente, que é o modernismo. De fato, cita-se o Arcebispo no final de seus dias dizendo que se ele tivesse lido mais cedo em sua carreira a Histoire du catholicisme libéral et du catholicisme social en France de 1870 à 1914 [História do catolicismo liberal e do catolicismo social na França de 1870 a 1914], do Pe. Emmanuel Barbier (1851-1925), teria dado aos seus seminaristas uma direção diferente. Se esse comentário é realmente autêntico, sugere que até o Arcebispo teria sido atingido pela malícia da modernidade. Da mesma forma, cita-se o valente fundador do periódico Si si no no na Itália, Don Francesco Putti (1909-1984), como tendo dito ao seu bom amigo, o Arcebispo: "Metade dos seus seminaristas são modernistas".

E é fácil subestimar a malícia da modernidade, porque ela vem desenvolvendo-se no Ocidente há séculos, e porque todos os ocidentais estão empapados nela, do berço ao túmulo. Dessa modernidade veio o modernismo na Igreja, precisamente para adaptar-se a ela, e essa mesma modernidade serviu de pano de fundo para todos os Padres do Concílio na década de 1960, e para os sucessores do Arcebispo a partir da década de 1980. De fato, só pode ter sido por uma graça especial de Deus que o Arcebispo viu o problema tão claramente como o fez.
Mostremos como a falta de compreensão sobre o modernismo subjaz à maioria dos erros de seus sucessores:

1. 95% dos textos do Vaticano II são aceitáveis. Pelo contrário, o Arcebispo Lefebvre disse que o problema com o Vaticano II não está tanto em seus grandes erros de liberdade religiosa, colegialidade e ecumenismo como está no subjetivismo que impregna todos os seus textos, pelo qual a verdade objetiva, Deus e a Fé Católica se dissolvem no nada. Pela revolução copernicana elaborada na filosofia por Kant (1724-1804) e denunciada por Pio X na Pascendi (1907), em vez de o sujeito girar em torno do objeto, dali em diante o objeto é que giraria em torno do sujeito. E é em torno dessa loucura que o mundo inteiro agora gira.

2. É verdade que o Concílio foi mau, mas hoje está perdendo o controle sobre os romanos. Sério? E a Pachamama? Desde quando temos visto essa idolatria pública nos Jardins do Vaticano e nas igrejas de Roma?

3. Não adianta nada a Fraternidade esperar que Roma se converta de seu modernismo, e se os romanos estão dispostos a aceitar-nos 'como somos', significa que Roma está a caminho da conversão, e então devemos chegar a um acordo. De fato, é inútil esperar que os modernistas romanos se convertam, porque são liberais. É preciso um milagre para converter um liberal (Pe. Vallet), porque o liberalismo é uma armadilha cômoda e lisonjeira da qual humanamente falando é virtualmente impossível sair sem um milagre, e esse milagre para o mundo e a Igreja será a Consagração da Rússia, e não uma Fraternidade que segue o caminho dos liberais. Se eles aceitam “tal como é” a anteriormente recalcitrante FSSPX, isso se dá somente porque a FSSPX não é mais antiliberal como era antes, porque o sal da Fraternidade perdeu seu sabor (cf. Mt. V, 13).

4. Precisamos de paciência e tato para entendermos como os romanos pensam a fim de não ofendê-los. Para entendermos como esses modernistas em Roma pensam, precisamos de humildade, realismo e recursos contundentes da Pascendi para assegurarmo-nos de que entendemos corretamente o vírus de seu modernismo, vicioso e altamente contagioso, antes de aproximarmo-nos deles. O que eles mais precisariam, se pudessem suportá-lo, é sentirem-se ofendidos e escandalizados com seu próprio modernismo, até que compreendam o que o Pe. Calmel quis dizer com: "Um modernista é um herege combinado com um traidor".

5. Não se assinou nenhum acordo formal entre Roma e a Fraternidade; portanto, ainda não se causou dano algum. Houve um dano imenso em uma série de acordos parciais, por exemplo, sobre confissões e matrimônios, pelos quais um grande número de sacerdotes e leigos da Fraternidade compreendem cada vez menos o que seu Fundador quis dizer quando escreveu em seu último livro que qualquer sacerdote que desejasse manter a Fé deveria ficar longe desses romanos. Eles podem ser homens "gentis". Eles podem ter "boas intenções". Mas, objetivamente, eles estão matando a Madre Igreja.

Kyrie eleison.



segunda-feira, março 02, 2020

Comentários Eleison: Frutos de Valtorta

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLIX (659) - (29 de fevereiro de 2020):




FRUTOS DE VALTORTA


Pode ser do diabo a oposição feroz que o Poema padece,
No entanto, o número de seus leitores só cresce.

Nosso Senhor Jesus Cristo nunca esperou que suas ovelhas fossem, e menos ainda que elas fingissem ser, grandes teólogos, mas esperou que elas tivessem bom senso suficiente para poderem julgar por seus frutos alguém ou algo que viesse a confundi-las. “Por seus frutos os conhecereis” – MT. VII, 15-20. Ora, as obras de Maria Valtorta (celibatária italiana acamada, 1897-1961), especialmente seu Poema do Homem-Deus (1943-1947), são altamente controversas, sendo seus defensores tão entusiasmados quanto os seus atacantes são violentos. Então, quais são os frutos delas? Aqui está um testemunho recebido recentemente pelo editor destes "Comentários", adaptado como de costume para o presente número:

Gostaria de compartilhar com vocês minha surpresa com o Poema do Homem-Deus, de Maria Valtorta, depois de minha paciente leitura de todos os dez volumes, e depois de discutir com o editor dos livros e com os escritores que apoiam Maria Valtorta. Eu já tinha ouvido o senhor citando essa mística italiana em particular, mas o ataque ao Poema pelo Pe. H. e a subsequente estigmatização daquele pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X me fizeram esperar dez anos antes de lê-lo. No entanto, a Providência finalmente colocou em minhas mãos uma cópia desta versão tão detalhada do Evangelho e de uma biografia de Maria Valtorta, que eu li cuidadosamente, com lápis na mão para fazer anotações. Após cinco meses de trabalho duro, fiquei surpreso ao descobrir o quão ortodoxos são os dez livros e quanto bem eles fizeram à minha alma e a toda minha família.

Existem dominicanos que os condenam. Eu acho isso lamentável. Eles realmente os leram? Sinto-me como se fosse um tabu falar sobre isso abertamente. Também estudei tudo sobre como a obra surgiu (foi aprovado por Pio XII), e considero injusto o modo como os tradicionalistas colocaram essa nobre alma vítima em juízo e a condenaram. Temo por seus críticos por não acharem que suas revelações não sejam verdadeiramente de Nosso Senhor e não sejam destinadas ao nosso próprio tempo.

Os números anteriores de seus “Comentários” de 2011 e 2012 sobre o “Poema” são um verdadeiro consolo para alguém como eu, que sente como se estivesse cometendo uma falta quando usa como alimento espiritual diário “O Evangelho, como me foi revelado” (o título alternativo do poema). Temos uma variedade de versões desta monumental Vida de Jesus: não apenas os dez volumes completos para adultos, mas também belos livros ilustrados para crianças a partir dos oito anos de idade e uma versão simplificada para crianças de 13 anos. O resultado é que toda a família está unida nessas páginas luminosas sobre o Homem-Deus e Suas relações com o mundo, com Sua Mãe e, sobretudo para os nossos tempos, com Judas Iscariotes. Suas relações com os outros onze apóstolos, com as mulheres santas e com Seus inimigos são igualmente edificantes.

Para entender a Paixão da Igreja de hoje, sofrendo e morrendo pelas mãos de seus próprios ministros, é particularmente útil comparar o caráter moderno e a natureza liberal de Judas, traidor da Igreja tal como se retrata no Poema, com nossos próprios clérigos conciliares, mas também acrescentaria com o "cristão" liberal sonolento dentro de cada um de nós. Pois, com efeito, o drama se desenrola não somente na cabeça da Igreja, mas também através das famílias que renunciam à luta por viver de acordo com o Evangelho, exatamente como se revelou à Maria Valtorta... (Aqui termina o testemunho do leitor).

Para concluir, o poema do Homem-Deus de Maria Valtorta é altamente controverso, mas não há por que sê-lo. Por um lado, não está em pé de igualdade com os quatro Evangelhos ou com as Sagradas Escrituras, nem foi declarado autêntico pela Igreja, nem é necessário para a salvação, nem é do gosto de todos os católicos sérios, nem é considerado como qualquer uma dessas coisas por qualquer católico em sã consciência. Por outro lado, assim como no Sudário de Turim ou na Tilma de Nossa Senhora de Guadalupe, as evidências surpreendentes da autenticidade do Poema parecem aumentar com o passar do tempo. Ele colocou inúmeras almas no caminho espiritual da conversão ou da perfeição em direção à salvação. E tem sido calorosamente recomendado e aprovado por muitos católicos sérios, incluindo teólogos e Bispos. Como disse Pio XII sobre o poema: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Kyrie eleison.

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Comentários Eleison: Autoridade do Arcebispo - II

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLVIII (658) – (22 de fevereiro de 2020):




AUTORIDADE DO ARCEBISPO - II


A autoridade vem de cima, não de baixo.
Se cortada em cima, ela não pode fluir.

DCLV - na teoria, a autoridade do Papa é indispensável para a Igreja. DCLVI - na teoria, os sacerdotes precisam absolutamente do Papa para uni-los.
DCLVII - na prática, a autoridade do Arcebispo Lefebvre foi seriamente prejudicada por não ter o suporte do Papa vivo na época. DCLVIII - na prática, o Arcebispo exerceu a autoridade que ainda possuía de pelo menos três maneiras diferentes, de acordo com os sujeitos sobre os quais a exerceu: aqueles que pediram que ele exercesse autoridade sobre eles nos termos dele, aqueles que pediram apenas uma autoridade parcial em seus próprios termos, e aqueles que não pediram nenhuma.

Observe-se antes de tudo como a classificação não é feita pela autoridade, mas pelos que estão sob ela. Em outras palavras, os sujeitos são os que "dão as ordens". Essa situação anormal na Igreja é o resultado direto do Vaticano II, onde a Autoridade Católica minou-se a si mesma radicalmente por sua traição plena à Verdade Católica, quando tentou substituir a religião objetiva de Deus por um substituto feito pelo homem, e mudar a Igreja Católica centrada em Deus pela Neoigreja centrada no homem. Por esse Concílio, todos os sacerdotes católicos foram essencialmente desacreditados, como seguem sendo-o até hoje, e continuarão sendo-o, até que os clérigos voltem a dizer a Verdade de Deus; somente então eles recuperarão sua autoridade plena.

Aqueles que pediram ao Arcebispo que exercesse sua autoridade nos termos dele foram, naturalmente, os membros das Congregações Católicas que ele mesmo fundou, principalmente a dos sacerdotes seculares, mas também a dos religiosos e religiosas e a dos terciários. Ele fez as Congregações do modo mais normal possível, com graus de obediência a si mesmo como Superior Geral, com votos nas ordenações para sacerdotes e promessas solenes no ingresso formal dos sacerdotes, Irmãos ou Irmãs em suas correspondentes Congregações. Na história da Igreja, os votos são para Deus, e, em caso de necessidade, muitas vezes têm sido dissolvidos (discretamente) pela autoridade romana, como é normal. As promessas dependem antes da escolha daqueles que as fizeram, e aqui a autoridade do Arcebispo foi seriamente comprometida, conforme relatado nos "Comentários" da semana passada, por ele ter sido condenado oficialmente pelo Papa e por seus confrades Bispos. Se um sacerdote decidisse deixar a Fraternidade pelo liberalismo à esquerda ou pelo sedevacantismo à direita, o Arcebispo não podia, como ele dizia, fazer nada além de cortar todo contato futuro, para que esses sacerdotes não pudessem fingir que ainda estavam em bons termos com a Fraternidade. Eles haviam escolhido ficar por sua própria conta.

Aqueles que, em segundo lugar, pediam ao Arcebispo que exercesse sua autoridade nos próprios termos deles, por exemplo, para receber o sacramento da Confirmação, ele prontamente satisfaria, na medida do possível dentro das normas da Igreja, por causa da crise da Igreja que faz com que seja questionável a validade das Confirmações conferidas com o Neorrito de Confirmação. Por um lado, dizia ele, os católicos têm direito a sacramentos seguramente válidos, e se, por outro lado, eles não queriam nada mais com ele, essa era uma escolha deles, e a responsabilidade era deles perante Deus.

E, em terceiro lugar, para aqueles que lhe pedissem que não exercesse autoridade sobre eles de maneira nenhuma, como um grande número de sacerdotes tradicionais que simpatizavam com sua Fraternidade, mas que nunca quiseram se juntar a ela, ele sempre foi generoso com qualquer contato, amizade, encorajamento ou conselho que pudessem ter pedido, mas nunca fingiu ou se comportou remotamente como se tivesse alguma autoridade sobre eles. E o mesmo com os leigos. Muitos católicos nunca concordaram com a posição que ele adotou, aparentemente oposta ao Papa, mas ele era impecavelmente cortês e estava pronto para responder as perguntas, se o sujeito que perguntasse merecesse nem que fosse minimamente uma resposta. E foi a objetividade e a razoabilidade de suas respostas que transformaram muitos neoeclesiásticos em tradicionalistas que se colocariam sob seu ministério ou sob a orientação de seus sacerdotes.

Resumindo, o Concílio paralisou a Autoridade da Igreja, mas onde havia vontade havia um caminho, ou pelo menos um caminho substituto, para que as almas buscassem a salvação eterna, o que é extremamente difícil sem os sacerdotes. Por meio do Arcebispo, especialmente, mas não unicamente, Deus garantiu esse caminho substituto para as almas, que ainda está aí.

Kyrie eleison.

domingo, fevereiro 16, 2020

Comentários Eleison: Autoridade do Arcebispo - I

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLVII (657) – (15 de fevereiro de 2020):


AUTORIDADE DO ARCEBISPO – I


Os sacerdotes católicos estão divididos atualmente.
Católicos, rezem para que eles se apoiem uns aos outros novamente.


Ilustremos a relação entre a Verdade Católica e a Autoridade Católica com o exemplo concreto do Atanásio dos tempos modernos que Deus nos deu para mostrar-nos o caminho durante nossa crise pré-apocalíptica: o Arcebispo Lefebvre (1905-1991). Quando a multidão de líderes da Igreja foi persuadida no Vaticano II a mudar a natureza da Fé, e alguns anos depois, em nome da obediência, a abandonar o verdadeiro rito da Missa, o Arcebispo, pela força de sua fé, permaneceu fiel à Verdade imutável da Igreja, e mostrou que ela é o coração e a alma de sua Autoridade divina. Como diz o provérbio espanhol, "a obediência não é serva da obediência".

Certamente o Arcebispo acreditava na autoridade da Igreja de dar ordens aos seus membros em todos os níveis para a salvação de suas almas. É por isso que, nos primeiros anos de existência da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (1970-1974), ele se esforçou para obedecer ao Direito Canônico e ao Papa Paulo VI, na medida do possível; mas quando os oficiais enviados de Roma para inspecionar seu Seminário em Écône afastaram-se da verdade católica nas coisas que diziam aos seminaristas, ele escreveu sua famosa Declaração de novembro de 1974, em protesto contra o abandono da fé católica da parte de toda a Roma em favor da nova religião conciliar, e esta Declaração serviu como o principal documento para aquilo que surgiu como o movimento Tradicional na Missa de Lille no verão de 1976.

Ora, o próprio Arcebispo sempre negou resolutamente que fosse o líder da Tradição, porque até hoje a Tradição Católica é um movimento não oficial, e não possui nenhum tipo de estrutura oficial. Ele também não era o único líder entre os tradicionalistas, nem todos concordavam com ele ou lhe prestavam homenagem. No entanto, um grande número de católicos viu nele seu líder, confiou nele e o seguiu. Por quê? Porque eles viram nele a continuação daquela fé católica somente pela qual eles poderiam salvar suas almas. Em outras palavras, o Arcebispo pode não ter tido autoridade oficial sobre eles, porque a jurisdição é uma prerrogativa dos oficiais da Igreja devidamente eleitos ou nomeados, mas ele construiu até sua morte uma enorme autoridade moral por sua fidelidade à verdadeira fé. Em outras palavras, sua verdade criou sua autoridade, extraoficial, mas real, enquanto a falta de verdade dos oficiais vem minando a autoridade destes desde então.

A dependência da autoridade, pelo menos a autoridade católica, em relação à verdade, não podia estar mais clara.

No entanto, com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que o Arcebispo fundou em 1970, as coisas foram um pouco diferentes, porque recebeu da Igreja oficial alguma jurisdição do Bispo Charrière, da Diocese de Genebra, Lausanne e Friburgo, uma jurisdição que ele apreciava, porque demonstrava que ele não estava inventando as coisas à medida que as levava adiante, mas estava realizando uma obra da Igreja. E assim ele fez o possível para governar a FSSPX como se ele fosse o chefe normal de uma congregação católica normal sob Roma, o que a defesa da verdadeira fé lhe dava todo o direito de fazer. No entanto, os romanos públicos e oficiais usaram toda a sua jurisdição para dar-lhe a mentira, alienando dele assim uma multidão de católicos que de outra forma o teriam seguido.

Ademais, a Neoigreja que eles estavam criando ao seu redor significava que, mesmo dentro da Fraternidade, sua autoridade estava seriamente enfraquecida. Por exemplo, se antes do Concílio um sacerdote insatisfeito com seu Bispo diocesano solicitava entrar na diocese de outro, o segundo Bispo naturalmente consultava o primeiro sobre o solicitante, e se o primeiro aconselhasse o segundo a não ter nada que ver com ele, isso era o fim imediato da solicitação. Mas, ao contrário, se um sacerdote da Fraternidade insatisfeito com ela solicitasse ingressar em uma diocese da Neoigreja, o Bispo da Neoigreja podia muito bem "recebê-lo de volta ao rebanho oficial" como fugitivo do "cisma lefebvriano". Assim, o Arcebispo não era apoiado por seus irmãos Bispos, o que significava que ele não podia disciplinar seus sacerdotes dentro da Fraternidade como deveria ter podido fazer. Sua autoridade andava sobre cascas de ovos, na medida em que não tinha à sua disposição nenhuma sanção para manter os sacerdotes rebelados sob controle. Portanto, a falta de verdade na Neoigreja deixou a verdade na Fraternidade sem a autoridade católica que lhe correspondia para protegê-la.

Portanto, para compensar a falta de unidade na verdade vinda da hierarquia, os sacerdotes tradicionais de hoje devem exercer uma tolerância acima do normal em relação aos outros, e os católicos tradicionais devem rezar mais do que de costume para que seus sacerdotes encontrem essa tolerância. Não é impossível.

Kyrie eleison.


sábado, fevereiro 08, 2020

Comentários Eleison: Papa Indispensável - II

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLVI (656) – (8 de fevereiro de 2020):


PAPA INDISPENSÁVEL - II


Tradicionalistas, a Tradição não dá esperanças,
De sua união sob um Papa sem verdade.

Foi à infidelidade da Autoridade Católica à Verdade Católica no Concílio Vaticano Segundo que estes “Comentários” na semana passada (DCLV, 1º de fevereiro) atribuíram a crise sem precedentes da Igreja Católica, que já dura mais de 50 anos. A conclusão lógica foi que a crise só chegará ao fim quando a Autoridade Católica retornar à Verdade, porque esta não muda, e, portanto, não pode mover-se para voltar a unir-se ao Papa e aos Bispos que se supõe que a defendam. Além disso, declarou-se que o Papa deve restaurar os Bispos, e que somente Deus Todo-Poderoso pode restaurar o Papa, e que Deus porá este novamente de pé somente "quando tivermos aprendido a lição". Porque se Deus nos tirasse muito cedo da lama, nós, seres humanos maus, nos beneficiaríamos somente para voltarmos a cair. Deus não pode permitir-se ser muito generoso com nossa perversa geração. Então, que lição, ou lições, precisamos que nos ensinem?

Entre outras, que o mundo não pode prescindir de uma Igreja sã, e a Igreja, para ser sã, deve ter um Papa são, e o Papa são deve ser obedecido. Por exemplo, quando o Vaticano II chegou ao fim, no final de 1965, os clérigos estavam em plena apostasia. Ainda assim, Deus deu à humanidade outra chance. Diante de Paulo VI, havia a questão premente de meios artificiais de controle de natalidade, ou seja, de contracepção. As condições nas cidades modernas estavam convencendo uma multidão de Bispos, sacerdotes e leigos católicos de que se tinha de relaxar a estrita e antiga condenação da Igreja, de que a cidade moderna estava certa, e que o governo imutável da Igreja, ou seja, Deus, estava equivocado. Paulo VI também queria tornar a regra mais fácil.

No entanto, quando a comissão de especialistas que ele havia designado para estudar a questão apresentou seu relatório, ele mesmo viu que a regra não podia ser relaxada. Seus últimos argumentos para manter a regra não têm a força dos antigos argumentos baseados na lei natural imutável, mas, ainda assim, Paulo VI defendeu a lei essencial em sua Encíclica “Humanae Vitae” de 1968. Mas quando ele a publicou, todo o inferno prontamente foi solto na Igreja. E, em 1969, ele impôs a toda a Igreja a missa do Novus Ordo. Seria vã a especulação de que se os Bispos e sacerdotes tivessem obedecido ao Papa, em vez de rejeitar a lei imutável de Deus, Deus poderia tê-los poupado da missa nova? Ao desobedecerem o Papa quando ele estava sendo fiel à lei de Deus, todos eles contribuíram para a ruptura da Autoridade na Igreja. Todas as apostas foram canceladas, e o caos tomou conta da Igreja.

Eis aqui um exemplo clássico de que a Verdade precisa da Autoridade, de que o mundo precisa da Igreja e de que a Igreja precisa do Papa. Especialmente nas cidades grandes de hoje, os homens não conseguem ver o que há de errado com a contracepção; pelo contrário, parece ser mero senso comum. Assim, se não há uma autoridade divina que proíba a contracepção, nada nem ninguém mais poderá resistir às paixões humanas que a impulsionam. Dessa maneira, o Vaticano II (Gaudium et Spes n. 48) sugeriu que, no ato do matrimônio, a recreação vem antes da procriação, e abriu as comportas para o divórcio, o adultério, o aborto antes do nascimento, e então o chamado aborto pós-parto, a eutanásia, a homossexualismo, a mudança de gênero e para horrores ainda desconhecidos, mas todos implícitos na ruptura da subordinação da recreação à procriação. A Santa Madre Igreja sempre soube que destroçar o ato do matrimônio é destroçar sucessivamente o próprio matrimônio, a pessoa individual, a família, a sociedade, a nação e o mundo. Esse é o caos onde estamos hoje. Essa é a necessidade da autoridade.

E a Autoridade mais importante é a da Igreja, para impor às mentes errôneas dos homens a Verdade infalível de Deus, e sobre suas vontades rebeldes a Lei eterna de Deus, para que possam chegar ao Seu Céu e evitar o seu Inferno. E para incorporar essa Autoridade e projetá-la diante dos homens, o Deus Encarnado instituiu Sua Igreja Católica Única como uma monarquia cujo único governante é o Papa Romano, que é o único que tem a missão e a graça de governar e manter unidos, na Verdade Católica, todos os membros da Igreja. Segue-se disto que, quando ele abandona a Verdade – como no Vaticano II –, as ovelhas são necessariamente dispersas, porque ninguém mais do que o Papa tem de Deus a missão ou a graça de uni-las (cf. Lc. XXII, 32).


Kyrie eleison.



domingo, fevereiro 02, 2020

Comentários Eleison: Papa Indispensável - I

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLV (655) – (1 de fevereiro de 2020):

PAPA INDISPENSÁVEL - I


Por mais que as ovelhas estejam largadas,
Ninguém, a não ser o Papa, pode unir a Igreja.


À medida que passam os anos, um após o outro, sem que a situação insana da Igreja pareça melhorar, católicos que seguem a Tradição continuam perguntando-se: por que ao menos os nossos sacerdotes tradicionais não se reúnem e param de brigar entre si? Todos eles acreditam na mesma Tradição da Igreja, todos concordam que o Concílio Vaticano II foi um desastre para a Igreja. Todos sabem que a briga entre os sacerdotes não é edificante, e é desanimadora para os seguidores da Tradição. Por que, então, eles não podem esquecer suas diferenças e concentrar-se no que os une, isto é, no que a Igreja ensina e faz, e sempre ensinou e fez, para salvar almas? Esta pergunta tem uma resposta, e para ajudar os católicos a perseverarem na Fé, pode ser necessário recordá-los dela em intervalos regulares.

Assumindo sempre que esta crise da Igreja não é nada normal na história da Igreja, mas é parte integrante do primeiro e único percurso que leva ao primeiro e único fim do mundo, se há nestes "Comentários" um par de palavras frequentemente escolhidas para precisar a estrutura dessa crise, este par é "Verdade" e "Autoridade". A crise tem suas origens em um momento muito anterior ao do Vaticano II, na “Reforma” deslanchada por Lutero (1483-1546); mas enquanto até o Vaticano II a Igreja Católica lutava para manter o veneno protestante fora dela, no Vaticano II a mais alta Autoridade Católica, dois Papas e 2.000 Bispos, desistiu da luta e deixou o veneno entrar. Isso significa que os textos do Concílio se caracterizam por sua ambiguidade, porque as aparências católicas tinham de ser mantidas, mas por baixo das aparências o verdadeiro impulso dos textos, o "espírito do Concílio", vai na direção da assimilação do liberalismo e do modernismo que se seguiram ao protestantismo, que esvaziará qualquer catolicismo remanescente tão logo seja permitido.

Isso significa que, no Concílio, a Autoridade Católica abandonou essencialmente a Verdade Católica para adotar uma doutrina mais afinada com os tempos modernos. E posto que a Autoridade Católica e a Verdade Católica agora se separaram, os católicos, para permanecerem católicos, tiveram – e ainda têm – de fazer uma escolha terrível: ou se apegam às autoridades da Igreja desde o Papa para baixo e abandonam a doutrina católica, ou se apegam à doutrina e abandonam a Autoridade Católica, ou escolhem um dos muitos compromissos possíveis em qualquer lugar entre os dois polos. De qualquer forma, as ovelhas estão dispersas, praticamente sem ter culpa quando se compara com a culpa dos dois Pastores maiores e dos 2.000 pastores menores que foram responsáveis pela Autoridade da Igreja ter traído a Verdade da Igreja no Concílio. Nesta divisão entre Verdade e Autoridade está o coração da crise atual que já dura meio século.

E como a Verdade é vital para a única religião verdadeira do único Deus verdadeiro, e Sua própria Autoridade é essencial para a proteção dessa única Verdade de todos os efeitos nos homens do pecado original, então a única solução possível para a crise que porá fim à esquizofrenia e à dispersão das ovelhas é o Pastor e os pastores, Papa e  Bispos, retornarem à Verdade Católica. Certamente isso ainda não está acontecendo na Igreja ou na Fraternidade de São Pio X, que ainda está – segundo todas as aparências – lutando para voltar a ficar sob a autoridade dos clérigos conciliares. (E o Arcebispo Lefebvre? "Ele está morto", dirão alguns!).

Portanto, até Deus Todo-Poderoso – ninguém mais pode fazê-lo! – colocar o Papa de pé novamente, e até que o Papa, por sua vez, “uma vez convertido, confirme seus irmãos” (Lx.XXII, 32), em outras palavras, endireite os Bispos de todo o mundo, até que isso aconteça essa crise só pode piorar, até que tenhamos aprendido a lição e Deus tenha misericórdia de nós. Até então, como diz o provérbio inglês: "O que não se pode curar, se deve suportar".
                                                                                                                                
         Kyrie eleison.


quarta-feira, dezembro 25, 2019

Comentários Eleison: Dois Bispos

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número  DCXLIX (649) - (21 de dezembro de 2019)



DOIS BISPOS




Homens com alguma decência acreditam no compromisso.
Na Consagração da Rússia está a solução.


Desde o verão e outono de 2012, quando ficou claro que dois dos três Bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X não assumiam mais a mesma posição no que se refere às relações dela com Roma que haviam assumido em sua carta de 7 de abril daquele ano dirigida ao QG da Fraternidade, que seguidores dela, sacerdotes e leigos, têm-se perguntado o porquê dessa mudança. Poucas pessoas, então, ou desde então, tomaram essa mudança de posição dos Bispos como uma questão de pessoas ou personalidades. Como a carta alertava severamente contra o abandono da clara recusa do Arcebispo Lefebvre de contatos com a Roma não convertida, a maioria das pessoas aceitou a mudança dos dois Bispos pelo que era, ou seja, um assentimento ao novo princípio do então Superior Geral de “contato antes da conversão”. No entanto, se a Roma conciliar não havia mudado, senão para pior, entre 1988 e 2012, por que os dois Bispos mudaram?

A questão mantém toda a sua importância até os dias de hoje. O que deve ganhar a Fraternidade para a Fé – e não a Fé para a Fraternidade! – por meio de contatos amistosos ​​da mesma Fraternidade com os romanos conciliares que ainda estão empenhados em seu ecumenismo do Vaticano II, que chega a incluir a veneração do Papa pelos ídolos Pachamama nos próprios jardins do Vaticano? Uma coisa parece certa: nos últimos 20 anos, a Fraternidade tem apostado tudo em relação ao seu futuro nessa amizade, e desistir dela agora significaria admitir que esses 20 anos teriam sido um grande erro. Portanto, a Fraternidade, com grande necessidade de novos Bispos para seu apostolado tradicional em todo o mundo, não pode escolher Bispos tradicionais e, assim, consagrar os de sua própria escolha, porque esses certamente desagradariam os conciliares romanos. Portanto, em 2012 os dois Bispos colocaram uma cruz pesada nas costas, que fica ainda mais pesada a cada ano que passa: eles ajudaram a levar a Fraternidade para um beco sem saída, e em 2019 ela não pode ter, nem pode não ter, seus próprios Bispos.

Recentemente se disponibilizaram informações que lançam alguma luz sobre a decisão dos dois Bispos de abandonarem a linha do Arcebispo de “conversão antes de contatos”. Quanto ao Bispo de Galarreta, soubemos que tão logo a carta de 7 de abril apareceu na Internet, ele se apressou em ir ao QG da FSSPX para pedir desculpas ao Superior Geral por seu aparecimento, ao qual ele renunciou absolutamente. Mas como ele poderia renunciar ao seu aparecimento sem também dissociar ele mesmo do conteúdo? Parece que a publicação o fez temer a implosão iminente da Fraternidade mais do que o conteúdo o fez temer o beco sem saída da Fraternidade, seu abandono essencial daquela defesa da fé do Arcebispo. A sobrevivência da Fraternidade era mais importante do que a da fé?

O Bispo Tissier de Mallerais demorou mais para retirar sua assinatura, por assim dizer, da carta de 7 de abril, mas no início de 2013 essa retratação também estava clara. A um amigo, ele deu a seguinte orientação episcopal: a conversão de Roma hoje não pode acontecer de uma só vez. O reconhecimento oficial nos permitirá trabalhar com muito mais eficácia dentro da Igreja. Precisamos de paciência e tato para fazermos as coisas no nosso tempo e não chatearmos os romanos que ainda não gostam de nossas críticas ao Concílio, mas estamos caminhando gradualmente – não foi isso que os santos fizeram? Devemos continuar denunciando escândalos e acusando o Concílio, mas precisamos ser inteligentes para entendermos o modo de pensar de nossos adversários, que depois de tudo incluem a Sé de Pedro. A política do Bispo Fellay não fracassou realmente: nada foi assinado em 13 de junho de 2012, e nada de catastrófico, nada de extraordinário aconteceu nos últimos 17 meses. Alguns sacerdotes nos deixaram, o que considero deplorável, por falta de prudência e juízo, mas tudo foi culpa deles. Em resumo, trate de confiar mais nos outros e menos em você mesmo. Confie na Fraternidade e em seus líderes. Tudo fica bem quando termina bem. Esse deve ser o espírito de suas próximas decisões e escritos.

Aqui terminam as razões do Bispo para recomendar a seu amigo que siga o Bispo Fellay. Mas o Bispo de Galarreta ou o Bispo Tissier de Mallerais ou o Bispo Fellay entenderam bem as razões pelas quais o Arcebispo rompeu o contato com os romanos conciliares? Os três não subestimam gravemente a crise sem precedentes causada pela traição contínua dos clérigos da Igreja à verdade e à fé? Como o compromisso doutrinário ou a politicagem meramente humana com Roma podem resolver essa crise pré-apocalíptica?

Kyrie eleison.

terça-feira, dezembro 03, 2019

Comentários Eleison: Ambos...E...

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCXLVI (646) - (30 de novembro de 2019)



AMBOS...E...


Para lutar numa guerra, devo-me guarnecer,
Com boas armas, e o meu inimigo conhecer.

Se se podem dividir os números destes “Comentários”, de um modo geral, entre os que tratam do problema moderno e os que tratam da solução católica, constata-se, infelizmente, que muitos leitores tenham estado interessados ​​no problema, mas não na solução; ou na solução, mas não no problema. Isto é de lamentar-se, porque se eu conhecer o problema sem a solução, posso ficar seriamente tentado a desesperar-me, especialmente nos tempos atuais, quando Deus está dando aos seus inimigos uma permissão sem precedentes para quase destruírem a Sua Igreja. Por outro lado, se o conhecimento da solução me leva a não identificar ou a subestimar o problema, então é provável que o problema me pegue de surpresa ao contornar minhas defesas inadequadas.

São Paulo foi um caso clássico de alguém que conhecia ambos, e que captou muito bem a solução do Novo Testamento, Jesus Cristo (Rom. VII, 24–25), simplesmente porque ele mesmo havia sido um fariseu fervoroso em conformidade com o desvio dos homens pecadores da época em relação ao Antigo Testamento (1 Cor. XV, 8-10). Assim, foi somente porque São Paulo experimentou diretamente a impotência do Antigo Testamento para perdoar o pecado que ele compreendeu tão profundamente a salvação que Cristo havia trazido aos homens pelo Novo Testamento. Outro grande convertido que se beneficiou dos muitos anos de erro para tornar-se um dos maiores servidores da verdade católica da Igreja foi Santo Agostinho. Eis o porquê de os franceses dizerem: "Um convertido vale mais do que dois Apóstolos".

E aqui está o motivo pelo qual os católicos de hoje não devem desprezar o conhecimento sobre os inimigos de Deus ou sobre como eles estão lutando contra Ele, por mais vil que seja essa luta. E os não católicos serão prudentes em não desprezar a Igreja Católica, porque, por mais oprimida que pareça estar, ainda tem as únicas soluções verdadeiras para qualquer um dos problemas reais do mundo, ou seja, propriamente humanos. Todos esses problemas são o fruto envenenado do pecado que se levanta contra Deus nas almas dos homens, onde somente Deus, e não os psiquiatras, pode penetrar com Seu perdão, que Ele escolhe conceder somente por meio de Seu divino Filho, e da Igreja comprada com Seu Sangue.

Assim, sugerimos aos leitores não católicos destes “Comentários” que se interessem não somente por suas análises das artes modernas ou da política, mas também por seus argumentos que podem parecer meras disputas entre católicos, como em relação ao que está errado com o Vaticano II, ou ao fato de a Fraternidade Sacerdotal São Pio X estar seguindo cada vez mais o Vaticano II. Isso ocorre porque a Igreja Católica pode muito bem ser a única solução verdadeira dos verdadeiros problemas de todos os leitores, mas essa solução é vulnerável à constante falsificação cometida por homens pecadores, e se ela for falsificada, não será mais a solução, mas parte do problema. Ora, o Vaticano II foi o clímax lógico de muitos séculos de homens que desejavam colocar o homem no lugar de Deus, e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ainda que tenha sido projetada e fundada em 1970 para resistir aos erros do Vaticano II, particularmente desde 2012 caiu sob o mesmo encanto venenoso desses erros. Portanto, os não católicos que buscam soluções reais para os problemas modernos que conhecem muito bem devem seguir os argumentos sobre o Vaticano II e a Fraternidade.

Da mesma forma, aos leitores católicos destes "Comentários" sugere-se que sigam não apenas seus argumentos relativos ao Vaticano II e ao perigoso deslizamento da Fraternidade até a conformidade com o mundo moderno, mas também suas análises aprofundadas do que há de errado com este mundo. Pois, em verdade, se os líderes da Fraternidade estão deslizando dessa maneira, não é porque subestimaram o problema deste mundo? Por estarem travando uma guerra sem conhecer o inimigo, eles não estão caminhando diretamente para a derrota? Enquanto o Arcebispo Lefebvre disse uma vez que todo o Vaticano II está cheio de subjetivismo, o Bispo Fellay não disse uma vez que 95% dos textos do mesmo Vaticano II são aceitáveis? E enquanto o Arcebispo costumava dizer, de várias maneiras, que alguém precisa de uma colher longa para cear com os romanos conciliadores de hoje, não está o sucessor do Bispo Fellay seguindo o exemplo deste último de comportar-se como se ele achasse que poderia ser mais esperto que os demônios romanos? A verdadeira força do Arcebispo nunca foi sua astúcia, mas sempre foi sua fé e sua fidelidade à verdade católica. E o mesmo se aplica à Fraternidade que ele fundou. Então, que os leitores católicos destes "Comentários" não pensem que não precisam considerar as análises dos Comentários sobre a corrupção moderna, por mais desagradável que lhes possam parecer. Enterrar a cabeça na areia pode-lhes custar caro.

Kyrie eleison.

segunda-feira, novembro 25, 2019

Comentários Eleison: O Mundo Deslizando

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCXLV (64) - (23 de novembro de 2019)




O MUNDO DESLIZANDO


Todas as árvores da Amazônia batendo palmas – seria possível isto concretizar-se?
Esperem, e verão o quão facilmente Deus pode fazê-lo realizar-se!


Não é somente a Fraternidade Sacerdotal São Pio X que está deslizando, é um mundo inteiro que desliza, dentro das almas dos homens. E assim como “não se pode fazer bolsas de seda com orelhas de porcos” e “não se pode fazer tijolos sem palha”, é impossível esperar que as instituições de ontem não sejam esvaziadas pelos seres humanos de hoje, como tantos balões colapsados dos quais o ar foi expelido. Eis a interessante resposta de alguém que ainda pensa, quando lhe perguntaram o que via, em relação ao futuro, para a "Resistência", para a FSSPX, para a Igreja e para o mundo:

Quanto à “Resistência”, não haverá grande aumento no número, nem uma grande colheita de almas, porque o material adequado simplesmente não existe. Como é possível fazer algo católico em pessoas que têm pouca ou nenhuma ideia do que é verdadeiro e do que é falso, do que é certo e do que é errado, daquilo ao que realmente é necessário resistir? A verdade e o certo foram minados, e mais e mais pessoas têm deixado de acreditar que são importantes, tanto porque o homem é um animal social que toma seu colorido daqueles que o rodeiam e que hoje desistiram massivamente da verdade e do certo, como porque a vida é muito menos exigente se a verdade e o certo são insignificantes. Então eu posso seguir o fluxo, e não há nada a que eu ainda precise resistir.

Quanto à FSSPX, se o Bispo Fellay é temeroso, seu medo se estenderá para o resto da Fraternidade, e de lá para o resto da Igreja, na medida em que a Fraternidade do Arcebispo foi em seu apogeu a rigidez da espinha dorsal da Igreja. Sem essa rigidez prevalecerá um conciliarismo suave, com um Missal híbrido que mistura a Missa Tridentina com a Missa Nova, com uma “hermenêutica de continuidade” que mistura a doutrina católica com o Vaticano II, com sacerdotes e ritos duvidosos, que possibilitam uma retomada ilusória da década de 1950. E assim a Igreja terminará sem ninguém que diga a Verdade, e a “luz do mundo” emitirá apenas um brilho tênue e opcional, e o “sal da terra” será impotente para impedir a corrupção universal.

O mundo, consequentemente, estará cada vez mais degenerado, tornar-se-á cada vez mais artificial, porque a Igreja era a protetora sobrenatural, pela graça, nas almas dos homens, de tudo o que era natural na criação de Deus. E, nesta Nova Ordem Mundial, até mesmo os restos da verdadeira Igreja continuarão sendo perseguidos pela intimidação passivo-agressiva de hoje. Sob uma aparência de tolerância passiva, a realidade é a de uma pressão implacável para conformar-se: "É melhor você ser 'politicamente correto', como todo mundo, ou faremos de você um pária". A essa pressão externa corresponde uma misteriosa fraqueza da mente moderna que não pode apegar-se a nenhuma verdade. O diabo, então, entra no nível natural e desvia a mente para a esquerda, para longe de Deus, fazendo com que os católicos duvidem de si mesmos: “Quem sou eu para dizer que o Arcebispo Lefebvre estava certo? Seus inimigos eram realmente maus? Quem sou eu para julgar?”. E nesse estado de espírito, é fácil trair...

Foi o Concílio dos anos 60 que desatou a confusão nos anos 70, e teve mais meio século para espalhar-se desde então, com a FSSPX trabalhando secretamente para o inimigo nos últimos 20 anos...”.

Essa visão do futuro é sombria, mas é uma previsão realista no nível meramente humano. Felizmente, Deus é Deus, Ele realmente existe, e Seus pensamentos não são os nossos pensamentos, nem os nossos caminhos são os Seus caminhos, “Porque, quanto os céus estão elevados acima da terra, assim se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Isaías LV, 8-9 [tradução da Vulgata pelo Pe. Matos Soares]). Tampouco este Deus se frustrará com as maquinações dos homens: “assim será a minha palavra, que sair da minha boca; não tornará para mim vazia, mas fará tudo o que eu quero, e produzirá os efeitos para os quais a enviei. Portanto, vós saireis com alegria, e sereis conduzidos em paz; os montes e os outeiros cantarão diante de vós cânticos de louvor, e todas as árvores do país baterão palmas. Em lugar do espigue subirá a faia, e em vez da urtiga crescerá a murta; e o Senhor será nomeado como um sinal eterno, que não será tirado” (Is. LV, 11–13 [tradução da Vulgata pelo Pe. Matos Soares]).

Kyrie eleison.